29 de dezembro de 2011

A Mão Esquerda de Deus

Título: A Mão Esquerda de Deus
Autor: Paul Hoffman
Editora: Suma de Letras
Páginas: 327
Skoob: Livro

"Preste atenção. O Santuário dos Redentores no Penhasco de Shotover deve seu nome a uma grande mentira, pois há pouca redenção naquele lugar e ele tampouco serve de refúgio divino".

É com esse alerta que o inglês Paul Hoffman começa A Mão Esquerda de Deus, um livro sombrio e cheio de mistério. Estréia do autor no romance aventura, a obra vem sendo divulgada no exterior como um "novo Harry Potter", muito embora o autor não recorra a elementos sobrenaturais nem raças não-humanas em sua narrativa.

O cenário da trama é desolador. Habitado por meninos que foram levados para lá muito novos e geralmente contra a sua vontade, o Santuário dos Redentores é uma mistura de prisão, monastério e campo de treinamento militar. Lá, esses milhares de garotos são submetidos a uma sádica preparação para lutar contra hereges que vivem nas redondezas. A intenção dos Lordes Opressores, os monges que protegem o lugar, é fortalecer os internos tanto física quanto emocionalmente, preparando-os para uma monstruosa guerra entre o bem e o mal.

Entre os jovens está Thomas Cale. Não se sabe ao certo se ele tem 14 ou 15 anos ou como foi parar ali. O que se sabe é que Thomas tem uma capacidade incomum de matar pessoas e organizar estratégias de combate. Essas poderosas habilidades serão colocadas à prova quando ele e dois amigos testemunham um brutal assassinato entre os corredores labirínticos da prisão. A visão do crime dá início a uma perseguição desesperadora e, finalmente fora dos muros do monastério, Cale irá compreender a extensão da crueldade dos lordes e a verdadeira origem de seu poder.

Um livro que, à primeira vista, já chama atenção por diferentes aspectos. Sua capa é bem trabalhada, sombria. Um homem encapuzado com uma espada na mão sob o título “A Mão Esquerda de Deus” só pode sugerir, no mínimo, uma história de uma ação mais “macabra”, com certa maldade. Na cultura humana, o “esquerdo” sempre foi visto como o errado, o mal, o que vai contra a ordem e coisas assim. Os maiores homens de um rei são suas mãos direitas, não as esquerdas. As palavras “A Mão Esquerda” já nos induzem a pensar que esta mão está longe do que diríamos ser certo, ético, justo ou até mesmo bom. E Cale, a personagem principal da história, muitas vezes se encaixa nesse conceito.

A ideia geral da série é boa, criativa e original. No início, pensa-se que o mundo é uma coisa, para, um pouco depois, perceber-se que ele bem maior que aquilo. Nas primeiras páginas, o autor nos faz pensar que o mundo inteiro é dominado pelos Redentores e está em uma guerra mundial contra os Antagonistas, mas depois vemos que não é isso, que a guerra não é tão grande assim e o mundo é muito maior.

Eu, quando percebi isso, desencantei um pouco. Talvez a trama seja mais bem trabalhada do que foi expresso neste primeiro livro, mas, por enquanto, não parece.

Ao contrário de personagens de outros livros, como Eragon e Herdeiros da Luz, onde vemos as personagens aprendendo tudo, ou O Senhor dos Anéis, onde Frodo não faz o tipo clássico de herói, Thomas Cale já começa, no livro, sendo um perfeito e cruel assassino.

Porém, como os outros, ainda e jovem e apresenta seus dilemas, não sendo assim tão desprovido de emoção como tentaram fazer dele. Por mais que o instinto de sobrevivência fale alto, ele não abandona seus amigos quando precisaram dele.

Duas coisas, porém, me incomodaram substancialmente na história.

Uma delas é o romance dele com uma “princesa”. Nada contra o amor entre um plebeu e uma pessoa da corte, o problema foi como tudo aconteceu: rápido demais. Em um momento, ela o repudiava, no outro, estavam perdidamente apaixonados deitados nus em uma cama. Acho que faltou desenvolver um pouco mais esse relacionamento.

Outra coisa, e essa coisa me incomodou muito mais, foi a guerra que aconteceu.

Hoffman conseguiu estabelecer uma estratégia de deslocamento de exércitos muito boa, mas, quando a batalha realmente aconteceu, pecou demais.

Geralmente os melhores e mais bem treinados exércitos são também os mais disciplinados, mas ele conseguiu aliar excelência com indisciplina, e, num exército, essas duas coisas não se encaixam.

Segundo que o general que comandou o exército, por mais que não seja o “principal”, comportou-se como uma criança jogando “War”.

É simplesmente impossível, em todo e qualquer sentido, que a guerra acontecesse da forma como aconteceu. Impossível. Números, por mais que não sejam o mais importante, são definitivos quando a proporção é de quarenta mil contra dois mil. É simplesmente impossível os dois mil ganharem dos quarenta mil quando todos os envolvidos são simples humanos sem nenhuma habilidade especial. Acredito que ele também precisa rever o conceito de vantagem num campo de batalha. Em um campo de batalha direto, exército contra exército, não faz diferença você esperar o oponente chegar até você ou avançar para ele se você não tiver alguma armadilha pronta e, definitivamente, ficar observando enquanto oponente põe em prática uma estratégia bem na frente do seu exército, não é a melhor atitude a se tomar.

Num conceito geral, dando uma nota de um a cinco, eu o classificaria com três. O texto é bem trabalhado e as personagens bem definidas, ainda que em alguns casos algumas pareçam ter mais de uma personalidade, mas não de uma forma proposital.

Um livro bom de se ler, envolvente, mas espero que a continuação faça-o valer mais à pena.
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