14 de dezembro de 2011

A casa das almas



Todos os dias eu passava na frente daquela casa. Ninguém gostava de passar por ali, mas éramos obrigados a isso.
A casa era isolada de tudo o mais, bem no meio de uma clareira já meio tomada pela vegetação e ficava na única curva da estrada de terra, escondida pela angulação. Você estava andando e, de repente, a casa aparecia na sua frente, como uma assombração, e, do mesmo jeito que vinha, quando você olhava para trás, ela simplesmente não estava mais lá. Era assustador.
Nunca íamos sozinhos pela estrada, sempre em grupos. Isso porque havia uma história, da infância de nossos pais, de que uma vez um grupo de amigos entrara ali, com o propósito de explorar a casa, como muitos de nós alguma vez já tivemos vontade de fazer, mas nunca criamos a coragem necessária. O fato é que eles criaram e entraram.
Dias se passaram desde a entrada deles até que a polícia foi enviada numa manhã ao local por um integrante do grupo que não teve coragem de entrar. Vasculharam a casa inteira à procura deles. Ninguém foi encontrado. Não havia vestígios da presença deles, nem de luta, ou, na pior das hipóteses, sangue. Eles simplesmente desapareceram. Os policiais disseram que o ar lá dentro era pesado, difícil de respirar e era como se uma presença os espreitasse em cada cômodo, cada corredor, cada fresta. No segundo andar da casa, encontraram um alçapão no teto, uma entrada para um sótão, dentro do quarto mais afastado da entrada.
Eles tentaram chegar perto, com o intuito de abri-lo, mas todos perderam a coragem. O que quer que existisse na casa, estava naquele sótão. O silêncio era mais do que profundo, era audível.
Não sabem quanto tempo ficaram lá, o fato é que eles não demoraram a vasculhar a casa inteira e encontraram o alçapão uma hora depois de entrarem. Segundo eles, logo depois de o encontrarem, saíram praticamente correndo da casa, assim que conseguiram se mover. Só que, quando saíram, já era quase noite.
Esse foi o único dia que procuraram pelos garotos. Depois do relato dos policiais, nem mesmo a família dos desaparecidos quis que as buscas continuassem. Nunca mais falaram da história.
Mesmo assim ela se perpetuou e chegou até mim, até nós, a outra geração. Ninguém nunca mais entrou naquela casa. Segundo os mais velhos, ela continuava exatamente como sempre foi: silenciosa, escura e amedrontadora.
Eu estava saindo de casa, mas estava atrasado.
Parei na entrada da estrada, sozinho, e, reunindo toda a minha coragem, entrei por ela. Fui andando rapidamente, quase sem levantar os olhos do chão. Talvez fosse apenas o medo, mas o caminho parecia mais longo do que o comum.
Senti uma forte sensação no peito, um aperto quase doloroso e, contrariando todos os meus instintos e também a razão, olhei para frente.
Eu estava na frente da casa, virado para ela, que me encarava com suas janelas pregadas e malignas. Olhei para um lado e depois para o outro. As luzes brilhavam quase que longe demais.
A casa, porém, estava nítida. Ela parecia emanar uma luz negra, que mostrava, mas não iluminava.
Não sei quanto tempo fiquei parado ali, apavorado demais para conseguir me mexer. Alguma coisa lá dentro me chamava, convidando-me a entrar.
Dei um passo à frente, minha parte racional lutando inutilmente contra a força que me impulsionava. Não era eu que estava dando o comando para minhas pernas.
Cheguei mais perto do portão de muros baixos, que se abriu silenciosamente um pouco mais para me receber, receber minha alma. Meus olhos estavam presos pela escuridão do umbral da porta que, pelo que eu me lembrava, deveria estar ali, pregada como havia sido pelos policias há décadas. Em seu lugar havia apenas um buraco que engolia tudo ao redor: sons, luzes, emoções, sentimentos, vidas. Passar por ali significaria não voltar.
Estava parado no hall agora. Nada era discernível dali. Dei mais um passo e atravessei a soleira. Nesse momento, tudo silenciou, inclusive minha mente. Meus instintos ainda me diziam, gritavam, que eu não deveria estar ali, porém eu não era mais capaz de produzir um pensamento sequer.
Andei mais para frente, adentrando no íntimo daquele lugar. De repente, estaquei. Havia alguém, algo, ali. Levantei rapidamente os olhos do chão e o que estava lá não estava mais. Vi apenas o vislumbre de uma capa negra. Não se moveu, mas se fundiu à escuridão.
Dei uma volta no meu corpo e olhei atrás de mim, esperando ver a porta por onde entrei. Não havia mais nada, ali.
Vi mais daqueles vultos encapuzados, mas, sempre que eu fixava um deles, eles misturavam-se à escuridão sua criadora. Deixei que meus olhos desfocassem. Pelo canto dos olhos comecei a enxergar suas figuras formando-se ao meu redor. Um círculo amplo me envolvia, suas cabeças baixas cobertas por capuzes negros, mais negros que a noite eterna que envolvia o lugar. As silhuetas saltavam aos olhos. Eram pelo menos uns vinte, a me cercar e observar, apavorar.
Tentei gritar de terror quando percebi movimentos na minha direção, mas minha voz ficou presa na garganta. Precipitei-me na direção de um deles, seu corpo imaterial dissolvendo-se no ar ao encontro do meu. Corri sem direção, sem saber para onde ir.
Tropecei em alguma coisa e caí. Bati meu rosto com força em algo que estava acima do nível do chão. Tateei ao redor e percebi que estava em uma escada. Estendi um pé para baixo, me levantando, e, ao invés de encontrar o chão plano de antes, encontrei apenas mais um degrau. Desci-o e, embaixo, havia outro e mais outro.
Senti o sangue que escorria pelo meu rosto, a dor abafada em algum lugar distante do meu cérebro entorpecido.
Subi correndo a escada, sabendo que aquilo não era uma boa ideia. Uma pequena parte de lógica surgiu na minha mente e disse que não havia pior ali, a morte não estava em cima. A casa era a própria morte, um terror sem fim.
A escada terminou abruptamente e eu tropecei, quase caindo. Estendi as mãos e percebi que estava em um corredor. Sussurros pareciam encher o ar, bruxuleando ao meu redor.
A casa emanava uma sensação ruim. Parecia haver alguma coisa nas paredes, estranhas formas incrustadas. Fui chegando mais perto de uma delas e, quando estava perto o suficiente para discernir, preferi não ter visto.
Era um rosto. Um rosto apavorado, olhos arregalados de pânico, a boca escancarada em um grito interminável, eterno. Me afastei rapidamente, batendo na parede do outro lado. Senti o roçar leve de fios de cabelo no meu rosto. Me virei e deparei com outro rosto, a centímetros do meu, a mesma expressão de terror, a garganta visível como uma escuridão engolfante.
Os olhos de repente se mexeram, fixando-me. Atrás de mim eu sabia que o outro rosto fazia o mesmo. Comecei a me afastar, avançando no corredor. Os rostos começaram a se separar da parede, revelando corpos disformes que eu não me interessei em avaliar. As bocas abertas sorriam para mim nas bordas. Choquei-me contra algo que estava no meio do corredor. Antes mesmo de olhar, eu já sabia o que era.
Outro rosto, e mais um, estavam ali, já fora da parede, diferentes entre si, iguais em seu eterno terror. Eu sabia quem eles eram, os quatro que, há décadas, entraram na casa para nunca mais voltar.
Sem conseguir gritar, desviei-me daquelas assombrações e rumei descontrolado para o fim do corredor, que sumiu abruptamente, revelando um cômodo mais largo, uma janela pregada ao fundo. Olhei para trás, esperando ver as assombrações me perseguindo. Não havia mais nada ali.
Algo me observava de trás. Girei o corpo e levantei os olhos para o teto.
O alçapão. O sótão.
Minha mão subiu contra a minha vontade, indo em direção a ele, que me chamava irresistivelmente.
Agora eu já sabia o que aconteceria. Eu não morreria. Me transformaria em mais um rosto na parede, paralisado para sempre no terror do momento que levaria minha alma, deixando um corpo vivo para sempre, mergulhado no terror e na escuridão.
Parei o movimento pela metade, pouco antes de alcançar a alça no teto baixo. A presença que se agitava por trás daquela porta ficou mais forte, mais próxima. Me afastei, tropecei nos meus pés e cai.
Antes de chegar ao chão, o alçapão se abriu violentamente com um barulho e eu gritei, gritei com toda a minha força, mais alto do que já tinha gritado na vida, quando um rosto, uma sombra, uma escuridão, o terror, avançou sobre mim, seus dentes arreganhados prontos para me engolir, os cabelos negros esvoaçando ao redor enquanto ela me abraçava em um aperto inquebrável e eu sentia que virava parte daquilo tudo, me transformando em mais uma assombração no corredor, vivo e morto ao mesmo tempo, eternamente aprisionado.
Senti que tudo o que eu tinha sido era sugado de mim, o som ensurdecedor de um vento feroz passava pelos meus ouvidos, abafando meus gritos desumanos, meu corpo ficando cada vez mais gelado.
 Por fim, senti apenas um vazio, um vácuo dentro de mim, a falta de qualquer coisa, de tudo. Estava condenado para sempre.
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