10 de janeiro de 2012

Uma balada de primavera – Sexta parte - As torrenciais chuvas de verão


Seguiu-se a Segunda Sinfonia dos Campos de Pinheiros com toda a sua elegância magistral, seus tons alegres e felizes. O outono se desfazia rapidamente, da mesma forma como tinha chegado para desvanecer o terrível inverno de sentimentos.

Ao outono, seguia-se o verão.

A ordem das estações pode estar um pouco confusa, mas, naquele teatro, as coisas aconteciam conforme a música que se tocava, e aquela música era como um verão ainda tímido, iniciando-se, com o Sol começando a desbravar as nuvens e mostrar seu calor. As estações ali tomavam forma conforme os corações dos regentes da sinfonia.

E agora os regentes estavam assim: ainda tímidos, mas exalando o calor de seu amor através das notas. A neve derretia cada vez mais, até que nada dela restou.

Cada vez mais pessoas ficavam sabendo da novidade, ouviam a música se espalhando por quilômetros e iam até o teatro para apreciar aquela bela sinfonia.

A maestrina se aproximava cada vez mais, voltando para o seu amado, aceitando-o de volta. O maestro continuava a cantar e dançar e tocar e reger os instrumentos do palco e os do público.

Para o observador mais atento e sensível, percebia-se um pequeno toque de tristeza naquela música, e era este toque que impedia que o Sol brilhasse realmente forte. A tristeza era a saudade, que apertava os corações quase recompostos dos regentes. Uma saudade tão grande como nunca tinham sentido antes, uma saudade que chegava a doer fisicamente, a fazer o corpo ansiar pelo toque do outro, pelo abraço e pelo beijo, ou apenas pelo sorriso. Ainda assim, apenas o tempo agora os separava.

Ou talvez não.

Um contratempo, notas dissonantes, uma percussão atravessada.

Em outro ponto, uma música pesada se chocou contra a sinfonia suave do grande teatro.

As ondas se chocavam e se destruíam, aniquilando-se. A música do maestro começou a se perder. Não conseguia se afastar do teatro e às vezes nem mesmo chegar à maestrina.

Uma dor repentina assaltou-os: o medo.

O violino da esperança caiu ao chão, sem conseguir manter seu ritmo, suas cordas desafinando e estourando, as crinas de seu arco arranhando as cordas que restaram de uma maneira quase fúnebre, até que ele desistiu de produzir qualquer som.

A maestrina parou. Uma pesada barreira impedia-a de se aproximar de seu amado maestro, impedia que o maestro chamasse sua amada maestrina.

Os espectadores ficaram tensos, alguns pararam de tocar, outros mudaram o tom de sua música. Eles enviavam ajuda com suas notas, mas algumas nem mesmo chegavam ao maestro, quanto mais à maestrina, que se afastava cada vez mais contra a sua vontade.

Os regentes não conseguiam mais se comunicar e a tristeza foi tomando forma novamente, iniciando na maestrina e forçando sua passagem pelo coração do maestro.

Ele caiu e chorou. Chorou rios de lágrimas e sangue e deixou que seu violino caísse. Novamente o teatro estava em silêncio, quebrado apenas pelos soluços afogados do maestro que jazia de joelhos no palco, tentando abafar a dor em seu coração. As pessoas começaram a sair novamente, mas não todas. Os amigos ficaram, mas eles não sabiam exatamente o que fazer, por isso apenas observaram novas manchas no palco, dessa vez, causadas pelas lágrimas do maestro.

Ele era mais forte do que isso. Não ia desistir, não desistiria nunca mais.

Seu coração bateu forte, ainda que sem um compasso definido.

Ele seria a força de ambos, ele não deixaria que a esperança deixasse de tocar.

Retirou as cordas do seu violino e foi até onde o violino da esperança tinha caído. Trocou as cordas uma a uma, pegou seu arco e levantou-se, majestoso em sua dor. Uma tristeza feroz emanava dele, que a usou para se pôr a tocar.

Agora era ele quem regia a esperança, ele quem a tocava. A esperança não depende de ninguém além de quem a sente, e ele estava decidido a não deixar que ela acabasse.

Um trovão retumbou pelo céu logo após o clarão que iluminou todo o teatro e centenas de quilômetros ao redor. De lá de dentro, o maestro pôde enxergar a maestrina, sofrendo novamente. Não ia permitir que isso acontecesse.

Raios rasgaram os céus quando as primeiras gotas torrenciais banharam o chão, o palco, os sentimentos.

As chuvas do verão haviam chegado.
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