13 de agosto de 2010

Um pequeno capítulo

Eu corria desesperadamente pelas ruas de uma cidade fantasma. A noite caía lentamente, o Sol lançando seus últimos raios no que poderia ser o meu último dia.
As luzes estavam acesas por toda parte, nas ruas, nas casas, nos prédios. Brilhavam malevolamente, como se estivessem perversamente satisfeitas com o destino que se aproximava. O ar começava a me faltar enquanto meus músculos cansavam. Mais um pouco e não poderia mais fugir.
Não me preocupei em gritar pedindo ajuda: ninguém atenderia. As ruas estavam vazias, as casas estavam vazias. Não havia ninguém na cidade.
Todos haviam fugido quando tiveram tempo. Os que não puderam fugir estavam ai, em algum lugar, desumanizados, estátuas vivas, andando a esmo, condenados a uma eternidade de submissão. Não poderiam me ajudar.
O Sol desapareceu ao longe e sua luz evanesceu rapidamente no ar pesado.
Minhas pernas começaram a falhar, os pulmões doíam a cada movimento. Tropecei nos meus pés e cai no chão. Senti que havia aberto um buraco no meu joelho por baixo da calça, o sangue escorria pela perna. Virei rapidamente, olhando em volta. Sentei no chão e respirei fundo várias vezes, tentando normalizar seu ritmo. Não dava pra continuar agora, eu precisava de uma pausa.
Eu sentia que eles estavam perto, meu fim estava perto. Eles me rondavam além do alcance das luzes fracas dos postes, que pareciam perder força lentamente. Eu sabia que eles não podiam fazer isso, não eram tão poderosos, mas meu cérebro parecia estar começando a falhar por causa do medo. A adrenalina corria pelo meu sangue, mesmo assim eu não me sentia apto para me defender. Não havia defesa contra eles.
Um poste perto piscou e falhou. O pânico começou a querer me dominar. Levantei na hora em que ele se apagou. Por algum motivo esse súbito decréscimo de luminosidade aumentou ainda mais o meu medo. Desatei a correr novamente, sem rumo.
Desde a hora que me pusera em movimento, mais cedo, eu não fazia idéia de para onde ir. Eu conhecia aquela cidade, crescera ali, mas não sabia para onde ir. Não havia para onde ir.
O arrependimento começou a me dominar. Porque motivo eu tinha ficado para trás quando todos tinham fugido? Tá, essa resposta eu sabia. Eu não queria fugir. Queria ficar e lutar. Outros tinham se engajado na defesa junto comigo, havia uma chance de vencermos, de derrotá-los, mesmo que fosse mínima. Não havia dado certo.
Nossa resistência começou a fraquejar. Alguns de nós foram pegos e agora não passavam de semi-humanos, vagando por ai.
Eles, por outro lado, tinham se multiplicado.
Eu sempre tive certeza de que eles não poderiam, não iriam, me pegar. Não, pelo menos, enquanto eu tivesse meus amigos comigo. Mas agora nem eles estavam ali. Eu estava sozinho, finalmente.
Não posso culpá-los, eles tentaram me levar com eles. Eu é que não quis ir. Acreditava que havia realmente um meio de derrotá-los, apostei todas as minhas fichas nisso. Apostei a minha vida. E agora, eu ia perder a aposta.
Corri por mais algumas dezenas de metros, meus passos ecoando abafadamente na atmosfera pesada. Eu os sentia cada vez mais perto, cercando-me, invisíveis.
A rua parecia não ter mais fim. Era uma eternidade de asfalto e luzes que se seguiam, com seus espaços de escuridão entre elas. E era ali que eles agiam. Na ausência da luz.
Mesmo sendo imateriais, não se sentiam à vontade na presença de luz. Eles se aproveitavam dos medos das pessoas, principalmente o do escuro, e era quando elas fraquejavam que eles agiam, subjulgando-as. Talvez esse fosse um dos motivos que me levaram a resistir tanto tempo. O escuro não me assustava. Nem as sombras, que eram um dos seus outros meios de “ataque”. O problema das sombras era que a maioria das pessoas não as entendiam realmente como elas eram. As que tomavam conhecimento d’Eles antes de serem dominadas, tentavam se refugiar nas sombras de suas casas. Sombras não são escuridão, porém as pessoas as confundem como tal, assim elas geram a ideia de escuridão, e é através dessa ideia que Eles atacam.
Parecia que eu estava andando em círculos. Eu conhecia aquele lugar e sabia que aquela rua não era tão longa, eu já devia ter chegado à algum lugar, ainda que isso nada significasse.
Parei novamente quando não tinha mais forças. Eles já estavam mexendo com a minha cabeça, criando ilusões. Um poste atrás de mim apagou, assim como outro dezenas de metros a frente. Eu olhava ao redor, sentindo a presença deles com intensidade. Eu não tinha mais forças para me defender.
As luzes foram se apagando aleatoriamente até que a que estava em cima de mim apagou também. Na mesma hora eu senti o movimento deles. Mesmo que estivessem em uma dimensão diferente, Eles provocavam alterações nesta. Sai correndo para outro ponto de luz. As lâmpadas continuaram queimando uma após a outra até que apenas o poste logo a minha frente e o que estava acima de mim tinham luz.
Olhei para o alto quando o outro poste se apagou. Não haviam estrelas no céu, ainda que milhares deviam poder ser vistas, já que não havia nenhuma outra luz acesa na cidade além daquela minha.
Eu não enxergava nada além do pequeno circulo iluminado pelo poste que diminuía rapidamente, como se a escuridão ao redor estivesse engolindo a luz por toda a sua circunferência, como um buraco negro.
Por fim a luz brilhava fracamente em cima de mim e um pequeno feixe ainda me envolvia, sobrevivendo enquanto eu tivesse forças para resistir. Forças essas que cessavam rapidamente.
Fechei os olhos um segundo antes da esperança apagar e me entreguei ao destino inevitável.
O que você achou?

3 comentários:

Ricardo disse...

Caramba, mergulhei fundo na imaginação lendo esse texto.
Achei envolvente pra caramba, parabéns! Mando muito bem.
Apesar que eu não sei do que se trata, se possui algum outro significado além deste que você quis passar.

Carol disse...

E meu medo de escuro agora tem explicação ahaha.
Já disse que você excreve muito bem, não vou te exaltar mais, convencido ;)

Gustavo R. Fragazi disse...

Hahahaa não sou convencido, apenas realista, você sabe disso ;D hehe

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