8 de março de 2011

continuação

Mas agora ela precisava se aproximar mais do que aqueles três passos. Sua prova caiu dentro do terreno, pertinho do portão. Era só esticar o braço por entre as barras que ela a pegaria. Ficou alguns minutos ali, apenas olhando para a prova fixamente, tentando tomar coragem para andar enquanto sentia medo de uma nova rajada de vento fazer sua prova ir mais para dentro. Mas tinha um algo mais também. Um apelo no ar, quase como um pedido para que ela se aproximasse mais.
Deu uma olhada rápida para a casa e se decidiu. Que mal teria? Nenhum, nem entrar na casa ela ia.
Deu o primeiro passo, incerto, e parou. Respirou fundo e correu a distância final, se jogando rapidamente no chão e esticando o braço para a prova. Forçou o ombro contra as barras do portão, esticando o braço e os dedos ao máximo, o rosto colado no ferro extremamente frio, apesar do calor que fazia. Mas a prova estava milimetricamente fora do seu alcance. Seus dedos quase roçavam o papel, mas era incapaz de alcançá-lo. O suor escorria pelo seu rosto, tanto por causa da corrida quanto por causa do esforço de tentar resgatar a prova.
Depois de algum tempo desistiu, jogando-se no chão e olhando de cara feia para o pedaço de papel, logo depois dirigindo sua cara emburrada ao portão, que impedia que ela pegasse a prova. Como queria que ele se abrisse para que ela pudesse pegá-la!
Com um rangido inicial os portões se separaram lentamente, abrindo-se em seguida no mais completo silêncio.
Isabela ficou sentada no chão, paralisada, o coração martelando no peito, a respiração presa enquanto os portões terminavam de abrir como uma gigantesca boca que esperasse que ela a atravessasse para poder engoli-la.
A prova se agitava levemente no chão com uma nova brisa, indo lentamente cada vez mais para dentro do terreno. Era agora ou nunca. Levantou-se correndo e se atirou em cima da folha. Uma forte rajada de vento fez com que a terra entrasse em seus olhos. Ouviu o som da folha sendo levada para longe enquanto caía no chão, ralando as mãos e um joelho.
Esfregou os olhos freneticamente, tomada de um pânico irracional. Se não fosse pelo medo, perceberia que não era realmente irracional. Se tivesse prestado atenção à sua volta, perceberia que não mais ouvia os sons da rua, que o Sol não estava mais tão forte em sua pele e que também o ar não possuía mais o mesmo cheiro.
Lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto enquanto soluços sacudiram o peito. Não sabia pelo que chorava, apenas que chorava. Pelo menos assim ela pode limpar os olhos com mais facilidade.
Quando finalmente voltou a enxergar normalmente, olhou ao seu redor, ainda sentada no chão.
Não via sua prova em lugar algum, ainda que não estivesse mais pensando nela. À sua frente erguia-se imponente a casa abandonada. Ficou olhando para ela por vários minutos, como que hipnotizada. Ainda em meio a todo o pânico (que ela não entendia porque existia, afinal, era só dar as costas e sair novamente pelo portão) a casa a fascinava. Não entendia também o porquê, mas a tentação de entrar era grande.
Levantou-se, ainda olhando fixamente para a porta, o medo dando lugar a uma sensação estranha de acolhimento. Na verdade, olhava para o umbral da porta, pois porta não havia mais ali, ainda que esse fato tenha passado despercebido para a mente da inocente criança.
Se ela tivesse olhado para trás antes de entrar, perceberia mais cedo, talvez, que havia motivo para pânico.
O portão simplesmente desaparecera, não estava mais lá, a apenas um metro de onde Isabela estivera caída. Atrás dela estendia-se, sem fim, aquele jardim feio e mal-cuidado para todos os lados. Bem ao longe, quando os olhos quase não conseguiam mais enxergar, não se via o horizonte. Este se perdia em trevas que consumiam lentamente a claridade do céu que antes não possuía uma única nuvem. Agora, turvava-se de tons de cinza chumbo e melancólico, e até mesmo essa pouca cor triste perdia-se na escuridão que avançava por todos os lados em direção à casa. Na verdade, parecia mais que a própria casa chamava a escuridão para si, de tão determinada que tal avançava.
Mas a pequena Isabela não percebeu nada disso. Seus olhos fixavam-se apenas no vão escuro do umbral, sua imaginação criando fantasias estimuladas pela própria casa que a atraía cada vez mais irresistivelmente, ainda que não fosse tão necessário: não havia mais volta, não havia mais para onde voltar.
Por fim, a pequena garota parou na soleira da porta, tentando enxergar algo na escuridão penetrante do interior, o coração retumbando dolorosamente de medo e excitação. Mesmo assim não conseguiu se impedir de dar o passo que atravessou a porta.
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