30 de março de 2011

Continuação de "Seria coragem ou covardia?"

No momento em que preparava o “salto”, algo em fez parar. Recuei instintivamente o pé do vazio e abri os olhos. Eu sentia algo diferente dentro de mim, uma estranha pulsação. Meu coração continuava batendo descontroladamente, mas a pulsação não era dele, parecia vir de algum lugar mais fundo no meu ser.


Olhei em volta, procurando alguma coisa, mas não havia ninguém ali, eu estava sozinha.


Olhei novamente para a frente. A paisagem era linda, linda mesmo, e eu não tinha percebido até aquele momento. O céu azul se estendia infinitamente para a minha frente, perdendo-se no horizonte, fundindo-se ao mar que refletia sua cor ao longe. As ondas quebravam em silêncio na praia no seu movimento constante de ir e voltar, sempre movimentando-se.


Meu corpo se arrepiou por completo de uma vez só e eu estremeci bruscamente, senti frio e calor, um aperto no peito, um sentimento que me fez ter vontade de chorar.


Estava tudo muito silencioso.


Senti as lágrimas começarem a escorrer pelo meu rosto, embaçando levemente a visão enquanto saíam dos olhos.


Uma linda borboleta passou pela minha frente. Era de um azul maravilhoso, ainda mais intenso que o céu acima de mim. E era imensa. Devia ter vários centímetros de uma asa à outra. Ela voou ao redor do meu corpo e quando passava pela minha frente, olhei para baixo e vi uma lágrima caindo sobre suas asas. Ela se desequilibrou no vôo e eu instintivamente estiquei as mãos para ampará-la. Segurei-a com delicadeza e ela não fugiu de mim. Levantei-a à altura dos olhos, sentindo suas finas pernas na minha mão, praticamente sem peso algum. Ela sacudiu suas asas e esvoaçou alegremente pelo ar mais uma vez.


As lágrimas começaram a cair com ainda mais vontade pelo meu rosto e eu não conseguia controlá-las. Um soluço sacudiu com força o meu peito. O que eu pensava que estava fazendo? Como podia desistir de uma vida como essa? De um mundo como esse, tão belo? Apenas porque eu tive alguns problemas, não significava que eu tinha o direito de acabar com a minha vida.


Olhei para baixo e fiquei tonta. Eu estava no topo de um prédio muito alto. Dei um passo atrás, perdendo um pouco o equilíbrio.


Percebi que estava sem ar nos pulmões. Inspirei com força, enchendo os pulmões de vida. Eu não queria morrer, não podia morrer naquele momento. Não! Haviam tantas coisas que eu ainda queria fazer! Viajar pelo mundo, fazer uma faculdade, me casar, ter meus filhos... e eu seria com eles totalmente diferente do que meus pais foram comigo.


Dei outro passo atrás, me afastando da borda. Nesse momento, ouvi um movimento atrás de mim que me assustou, logo em seguida, uma voz falou.


- Não faça isso.


Me virei bruscamente, buscando enxergar o estranho, o coração ainda mais acelerado. Dei um passo inconsciente atrás. Mas dessa vez o atrás era o vazio.


Meu pé se apoiou apenas na borda do prédio e eu perdi o equilíbrio. Era um homem que tinha me chamado. Ele viu que eu caía e já estava correndo na minha direção, gritando, mas eu não ouvia nada, só sentia meu corpo perdendo o peso e caindo pelo ar. Joguei meu corpo pra frente, tentando buscar um ponto de apoio, mas eu não consegui, eu estava caindo e caindo. E ia morrer.


E então eu não pude deixar de acreditar que Deus existe, ainda que esse pensamento pareça ter sido um pouco ilógico no momento.


O homem – na verdade era um rapaz da minha idade, talvez – conseguiu me alcançar antes que eu ficasse abaixo do nível do parapeito. Segurou com firmeza no meu braço, mas sua mão escorregou e desceu até a mão. Senti que minha mão escorregando também. Ele esticou o outro braço, debruçado no parapeito, metade do corpo pra fora do prédio também, e segurou no meu antebraço.


- Não vou te soltar!


Sua voz era suave, ainda que exaltada pelo esforço. A primeira coisa que notei foram os seus olhos. Eram azuis, lindos olhos azuis. Não pude deixar de reparar na diferença com os olhos negros.


Ele recuou seu corpo, buscando um ponto de apoio sem afrouxar o aperto em mim que até machucava um pouco, mas o que era essa pequena dor em comparação com a morte? Segurei firme na mão que segurava a minha e agarrei seu braço com o meu outro.


Ele lentamente se ajoelhou no parapeito, içando-me com ele. Com um esforço enorme, pôs os pés no chão, agachado. Não pude deixar de notar como ele era forte, ou pelo menos determinado. Estava arriscando a própria vida para salvar uma estranha.


Começou a se erguer lentamente com as pernas e eu fui subindo junto. Ele me puxou com os braços também e eu ajudei, fazendo o máximo de força com os meus.


Foram longos minutos, mas ele conseguiu me erguer o suficiente para eu colocar um pé no parapeito. Daí, ele se jogou para trás com força e me levou junto. Giramos no ar e ele me agarrou pela cintura, colocando seu corpo embaixo do meu para me proteger da queda. Senti o baque do seu corpo no chão, mas foi macio.


Eu estava nos braços de um estranho, deitada no chão em cima dele, e ele acabara de salvar uma vida que eu achava perdida.


Ele olhou fundo nos meus olhos, ofegante. Eu sorri tremulamente para ele e comecei a chorar incontrolavelmente.


É, Deus existia sim.

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