23 de janeiro de 2014

Desafino Neural - Selecionado pela editora Estronho


Um guarda caminha lentamente por corredores às escuras. Mantinha este ritmo para impedir que seu cérebro associasse a corrida a algum perigo, por mais que ele não soubesse disso conscientemente.
Odiava aquele emprego. Maldita foi a hora em que aceitou. Preferia ter ficado na rua a entrar ali, mas tinha filhos a sustentar, então fazia o possível para controlar o medo e não enlouquecer com os gritos, murmúrios, respirações, choros e outros sons que já escutou ali.
E o pior nem era isso. O pior eram as histórias.
A diretora Alessandra não fala nada sobre elas, não as menciona, dizendo que são reais e que era para tomar cuidado, ou então, que não são, entretanto, todos os funcionários as conhecem.
O fato de todos conhecerem-nas se deve justamente aos malditos funcionários. Eles contam tudo o que sabem sobre aquele lugar para os que entram. Ele havia pedido, por acaso, para ouvir? Não, droga! Mesmo assim, contaram cada uma das que puderam lembrar, com todos os detalhes mais macabros, nojentos, aterrorizantes. Ele teria ficado muito feliz sem saber de nenhuma delas. Não exatamente feliz, porque apenas a atmosfera daquele lugar era capaz de assustar até mesmo uma pessoa cega e surda, porém, mais tranquilo.
Deixando-se levar pelas histórias, o guarda continua sua ronda, até que, ao chegar à recém-reaberta ala de psiquiatria infantil, estaca.
Volta para olhar o corredor que tinha acabado de passar.
Vazio.
que ele tinha certeza que viu um avental desaparecendo na outra ponta, através do vidro da porta dupla que isola a área dos quartos. Retirou seu cassetete de borracha da cintura, sentindo a mão tremer. Puxa um molho de chaves com a outra. Demora mais de um minuto para achar a chave certa e mais umas boas dezenas de segundos até conseguir encaixá-la na fechadura.
Um clique ecoa pelo corredor. Parecia muito mais o som de uma porta se trancando. Luta contra a ideia de que essa tranca o fecha dentro de um pesadelo.
Baixa a maçaneta, fazendo-a soltar um gemido longo e agudo. A porta, entretanto, se abre no mais profundo silêncio.
De todas as histórias que ouviu, a que mais o assusta é a que fala de um homem que havia se perdido ali em uma noite e foi capturado pelo fantasma de um médico. Foi torturado até a morte. Depois que morreu, seu espírito continuou preso, e todas as noites sua tortura continua. Dizem que é possível ouvir os gritos do homem.
O pior era que o guarda já ouviu ecos de gritos pelos corredores, no meio da noite, que parecem não vir de lugar algum.
Sua respiração treme enquanto anda. O som dos passos reverberando nas paredes só não é mais alto que o bater acelerado do seu coração.
- Doutor? – solta uma voz tão trêmula quanto o resto de si.
Viu um avental, antes, então só pode ser um médico. O que estaria fazendo ali, àquela hora? Ficou preso na ala? As portas são trancadas às dez da noite, e não são todos que têm as chaves.
Tenta engolir, mas sua boca é o oposto da testa, costas e axilas, de onde um suor frio escorre.
- Doutor? – chama novamente ao chegar ao fim do longo corredor.
Um corredor sem saída.
Aproxima-se de uma porta, mais ou menos o lugar onde tinha visto o avental desaparecer, reunindo a pouquíssima coragem que lhe resta, e olha pelo vidro.
apenas a paciente, uma garota, deitada em sua cama, completamente adormecida, os cabelos negros espalhados no travesseiro.
Acalma-se um pouco. Estava pensando nas malditas histórias, por isso viu o avental. Tudo invenção do seu cérebro. Xinga-se e repreende-se mentalmente, prometendo que ia parar de pensar naquilo. Talvez levasse um livro para ler durante a próxima ronda.
Enxuga a testa na manga do uniforme e vira-se para ir embora.
Solta um grito idêntico àqueles que teme ouvir.



Centro Psiquiátrico Machado de Lucas, 25 anos atrás.

O som de cascalho sendo triturado por pneus invade meus ouvidos e me traz de volta lembranças que prefiro esquecer. Há vários tipos de lembranças, classificadas em várias categorias. As lembranças que queremos esquecer estão naquelas que, por essência, nunca sairão da nossa mente. Basta não querer pensar em algo para ele vir à tona.
O som que me remete ao passado foi causado por pneus que pertenciam a um sedã negro, propriedade da Polícia Federal do Brasil. Já o cascalho pertencia a um manicômio.
Não um manicômio qualquer. O pior de todos.
Nunca imaginei que uma pessoa poderia expressar tanto pavor nos olhos como aquela garota ao ouvir a sentença do juiz.

Por haver sido comprovada a incapacidade mental da ré, sentencio-a, pela tortura, assassinato e esquartejamento de seus pais e irmã, à internação em um centro psiquiátrico qualificado, a instituição Machado de Lucas”.

As palavras do juiz me ficaram gravadas ferreamente na memória, como se tivessem sido escritas a fogo na retina e eu tivesse sido obrigado a lê-las cada segundo desde que foram pronunciadas. A expressão dela também. Louca. Mas não louca o suficiente para não saber o que era uma sentença que a mandava para aquele lugar.
Era a ele que pertenciam os cascalhos esmagados pelo sedã preto da polícia. No volante, eu.
Seus gritos pareceram ecoar outra vez nos meus ouvidos. Desesperados, alucinados, suplicantes, cheios de ódio. Todas essas emoções foram expressas por aquela voz, que usou seus acordes mais agudos para expressar seu medo e desespero.
Quase senti pena. Quase.
Fecho os olhos e mergulho na cena novamente.

Gritos entram pela janela. Eram gritos apavorados, e duas eram as vozes que os geravam.
Levanto com um pulo só do sofá da sala, onde estivera cochilando. Novas facas sonoras penetram no meu apartamento, ferindo minha alma com a intensidade do medo que carregam.
Avanço para a cômoda da sala, um programa qualquer esquecido na televisão. No primeiro passo, chuto a mesa de centro com tanta força que o tampo de vidro, já rachado, despedaça-se. A pontada aguda de dor desperta o que faltava dos meus sentidos. Solto um grito abafado com um palavrão no meio. Sento no sofá e subo a perna da calça, já rasgada, para ver o estrago.
Nenhum vidro preso, mas um corte de uns dez centímetros de extensão deixava o sangue jorrar da parte posterior da panturrilha, perto do calcanhar.
Com um puxão, termino de rasgar a perna da calça até o joelho. Arranco o pedaço de tecido e amarro-o sobre o corte.
Do lado de fora, nem mesmo um suspiro.
Amaldiçoando tudo o que posso amaldiçoar, termino, mancando, o trajeto até a cômoda. Abro a gaveta e pego o que queria.
Saio do apartamento e chego direto nas escadas, tão silenciosas quanto o exterior do prédio. Passo a trava na porta. Solto a da arma.
Moro no segundo andar, e os gritos pareciam vir do quinto ou sexto. Inicio a subida. Merda de prédio sem elevador.
Avanço o mais rápido que minha perna ferida permite, controlando um gemido de dor que ameaça sair toda vez que apoio meu peso nela. Chego ao terceiro andar, portas estão abertas, outros moradores assustados com os gritos, tentando saber o que estava acontecendo. Subo até o quinto e encontro uma mulher que diz ter certeza que eles vieram do andar de cima, e que também ouviu sons de pancadas fortes, muitos deles. Meus vizinhos sabem que sou federal e parecem mais tranquilos ao me verem por ali.
Eu, entretanto, não estou nada tranquilo.
Chego ao sexto.
duas portas, ambas fechadas. Por algum motivo, sei que a certa é a da direita.
No momento, apenas silêncio.
Sinto um forte arrepio por todo o meu corpo e uma sensação gélida. Um frio pegajoso começa a escorrer por dentro do meu peito.
Respiro fundo, tentando controlar aquelas reações irracionais. Preparo-me para arrombar a porta. Com um grito abafado de dor, atiro-me contra a madeira.
A porta se abre, tropeço nos meus pés e vou ao chão. Nem cheguei a tocá-la.
Ouço o baque forte e seco da entrada se fechando.
O medo pegajoso dissolve-se no meu sangue, fluindo mais facilmente dentro de mim. Entro em pânico. Levanto, esquecendo o ferimento. Giro a maçaneta e puxo uma, duas, três vezes, usando toda a minha força. Apoio um pé no batente e repito o processo. Nada. Furioso, miro a fechadura e disparo cinco vezes por toda a sua extensão, destruindo-a. A porta continua fechada. Passo os dedos pelo buraco aberto na madeira, mas nem assim consigo abri-la.
Desisto. Escoro-me na parede ao lado da porta e olho pela primeira vez para o apartamento. Minha respiração fica presa. Poderia haver alguém armado ali, e eu feito idiota tentando arrombar a porta. Já poderia até mesmo ter sido morto.
Ergo a arma e, lentamente, sentindo o sangue escorrendo pela minha perna, manco pelo local. Quando chego à frente da porta de um dos quartos, sinto novamente aquele arrepio. Era ali. Os gritos tinham saído dali.
Giro a maçaneta. A porta se abre quase que gentilmente. Avanço, claudicante, e quando finalmente posso ver o que há, paraliso-me.
Um par de olhos negros fixa-me friamente, do outro lado do cômodo, encimando um vestido branco de linho. E um grande machado. Ambos cobertos de sangue.
Ao seu redor, destruição, tudo tingido de vermelho.
Minha mente não consegue abarcar o horror daquela cena. Dou mais um passo. Meu pé bate em algo no chão. Desvio o olhar e fito, embasbacado, apenas um dos pedaços do que estava espalhado por todo o quarto. Era uma mão. Apenas a mão.
Um machado é erguido por suaves braços de criança. Seus pés correm na minha direção. Em um gesto instintivo, abaixo a pistola e disparo.
A bala atravessa o ombro, sua força impulsionando-a no sentido contrário. Cai no chão e bate a cabeça. O som do machado se chocando contra o piso é mais alto. Desmaia.
Um estrondo chega da sala, forçando-me a agir.
Vou para lá. A porta de entrada está escancarada, e por ela entra um batalhão de policiais militares, atentos, prontos para matar um assassino. Veem-me e gritam para que eu solte a arma, me abaixe no chão. Automaticamente, mostro meu distintivo, que sempre levo comigo. Ainda estou mergulhado num denso torpor causado pela visão de dentro daquele quarto.
Tinham sido três pessoas, e eu só sabia disso porque só contei três cabeças. Pela quantidade de pedaços, membros, vísceras e sangue espalhados, bem poderia ser uma multidão.
Sento-me no sofá, sem saber como reagir. Ouço um riso de criança ecoar ao meu redor. Do outro lado da sala, dois olhos negros desaparecem assim que cruzam com os meus.

Abro os olhos e volto ao presente.
Odeio as lembranças daquele dia. Mas, como disse, são justamente essas que nunca saem da nossa mente. Ainda possuo uma bela cicatriz e uma merda de um manquejar que me acompanhará pelo resto da vida. Como posso esquecer aquilo se cada passo que dou me lembra do porque daquela porcaria de andar torto? O vidro tinha lesionado um tendão, além do músculo. No final das contas, alguns pedaços bem pequenos tinham entrado no ferimento e foram dilacerando minha carne por dentro durante o esforço que fiz em seguida.
E tudo para encontrar... Aquilo.
Quase um ano depois, ainda tenho pesadelos com aquele dia, com a visão daqueles corpos.
Tudo isso eu contei para a polícia comum. Dei meu depoimento, voltando várias horas naquele dia. Queriam saber cada detalhe, se tinha ouvido algum barulho antes, se tinha visto a garota ou alguém da sua família. Não, eu não tinha visto, não, não escutei nada. Ainda assim, detalhei todos os acontecimentos que presenciei.
Bem, quase todos.
Se eu tivesse dito, principalmente no tribunal, quando testemunhei, que havia visto uma garota de cabelos e olhos negros, com não mais que seis anos, usando um vestido de linho todo branco, e que assim que ela me olhou, desapareceu, provavelmente eu estaria neste mesmo momento internado em algum outro manicômio, e não do lado de fora daquele.
Pouco mais de um ano se passou desde que estivera ali pela primeira vez, e achei que seria a última. Não sei por que notar que nada havia mudado me surpreende tanto. Até mesmo o som dos pneus esmagando o cascalho era o mesmo, o maldito som que fechou definitivamente a sentença daquela garota, que sempre me faria lembrar o dia em que foi levada até ali.
Ela foi transferida da delegacia em um carro comum da policia militar. Eu não tinha nada que estar ali, era apenas uma testemunha no caso, mas quis acompanhar o trajeto dela. Eu a conhecia. Havíamos conversado inúmeras vezes, e ela nunca pareceu ter nenhum problema. O que a levaria a usar um machado para matar seus pais e sua irmã (de apenas seis anos!) e depois esquartejá-los tão cruelmente? Eram tantos os pedaços que os legistas tiveram algumas dificuldades em definir que partes do corpo compuseram.
Sinto uma ligeira tontura e resolvo parar de pensar nisso.
Olho ao redor e verifico que estou sozinho no estacionamento cercado por árvores. O centro tinha sido construído, 225 anos antes, num local isolado, cercado pela vegetação. Só não sei se o intuito foi promover tranquilidade aos presos ou impedir que eles pudessem causar mal a alguém antes que fossem capturados, caso fugissem. Provavelmente a segunda opção.
Começo a andar, saindo do estacionamento, dando a volta no prédio para chegar à entrada. Paro em frente às escadas. Nunca imaginei que fosse voltar a este lugar. Muito menos por esse motivo.
Maldito formulário! Preferia nunca tê-lo encontrado. Devia ter contratado alguém para fazer o inventário da casa da minha mãe, assim nunca teria descoberto aquele papel. Ele datava de 36 anos atrás, assinado pelos meus pais, autorizando a internação de Isabella Gonçalves Brandão. Diagnóstico: esquizofrenia hebefrênica. No alto, o símbolo da instituição: Centro Psiquiátrico Machado de Lucas. Junto com esse papel, encontrei outros três. Um deles era uma sentença de internação por agressão a um garoto de apenas três anos. Outro era um relatório médico, de cinco anos depois, que dizia que a tal Isabella poderia ir para casa, por determinação da justiça e liberação dos médicos, mas que o tratamento não poderia parar. O último papel havia sido feito um ano depois disso. Era um atestado de óbito. Causa da morte: suicídio.
O meu sobrenome é Gonçalves Brandão.
Conclusão: eu tive uma irmã, e ela foi internada naquele lugar, para depois se suicidar por causa da sua doença.
Crianças de seis anos podiam ser presasassim? E porque meus pais nunca me contaram sobre isso? Pela data marcada no atestado, ela morreu no mesmo ano que nasci. Acharam que não era necessário que eu soubesse disso?
Respiro fundo para controlar a raiva e a sensação de mal estar que me domina, parado em frente àquela instituição macabra.
A população em geral não ouve falar dela, mas é um lugar muito conhecido por policiais. Sempre que se quer dar fim a um preso relativamente perigoso ou problemático, dá-se um jeito de declará-lo mentalmente incapaz, e então ele vem pra cá. Ou quando um advogado tenta safar seu cliente declarando a mesma coisa só para ele fugir da prisão, se o juiz é mais, digamos, rigoroso, o manda pra cá também.
Esse lugar está cheio de assassinos, estupradores, torturadores, os piores tipos de criminosos, todos loucos. Porque dizem que se você entra são ali, não permanece assim por muito tempo.
Solto o ar que estava prendendo e inicio a subida manquejante da escada de entrada do centro. Quero descobrir tudo o que puder em relação à minha irmã, mesmo que eu não tenha mais como ajudá-la.
Preciso saber sobre a garota, também. Desde que tentara me matar, não passo um dia sequer sem pensar nela. Por mais louca ou perturbada que seja, por mais que tenha feito aquilo com seus pais... Não acho que este seja um bom lugar para uma criança. Aqui ela não será curada, se tudo o que contam for real.
Na verdade, passei esse ano fazendo muito mais do que apenas pensar.
Separado, há anos não divido minha casa com alguém. Meu casamento não deu certo. Minha mulher não me aguentou e foi embora. Dizia que eu era muito estranho, isolado, antissocial. Deixou a aliança em cima da mesa e foi embora, sem dizer nada além do que eu já sabia. Depois do que aconteceu com a minha perna, aposentei-me por invalidez. Não preciso mais trabalhar, e isso é um tormento para mim, para a minha mente, minha sanidade.
Sonhei com ela. Sonhei muitas vezes e ainda sonho. Algumas delas com a cena que presenciei, outras, muitas outras, com várias cenas diferentes que se passaram em vários lugares, ainda que todos parecessem pertencer a um mesmo local. Vi-a em vários quartos e salas, às vezes cercada por instrumentos cirúrgicos, às vezes em locais totalmente brancos. Em todas essas vezes, junto com ela, estava um homem. A julgar pelo jaleco branco, um médico. Seus cabelos eram negros e penteados para trás, e isso era tudo o que eu via dele. Nunca vi seu rosto, mas vi as coisas que fazia com ela. Lembro que fazia perguntas, falava, às vezes parecia hipnotizá-la, outras vezes injetava substâncias em suas veias. Torturava-a. Em alguns dos sonhos a garota simplesmente surtava. Começava a berrar feito louca, a tentar bater no médico. Nunca conseguia. E isso era estranho, porque na situação em que eu estava, ali, de espectador, a garota parecia mais distante de mim, como se estivesse inalcançável. O médico, porém, estava a um toque de distância. Eu sabia, sentia que se fosse em direção a ele e tentasse tocá-lo, conseguiria.
Nunca tentei. Porque os sonhos, inclusive aqueles em que apenas nos observávamos (por mais que eu a sentisse tão distante, ela podia me ver e eu sabia que sim), são todos pesadelos.
O medo está sempre me rondando, sempre ameaçando me assaltar e dominar. Acho que os piores sonhos são os que ela tenta falar comigo, tenta me pedir ajuda. Nunca consigo me mover, nunca consigo ajudá-la. Assim, ela continua sofrendo.
Acordo encharcado de suor todas as vezes. Tremendo. O coração acelerado.
Esses sonhos, que mais pareciam uma novela que eu assistia um capítulo a cada noite, são outro motivo para eu estar aqui neste momento. Preciso tentar achar uma explicação para isso. Nunca mais dormi realmente bem desde aquele acontecimento. Estou a ponto de enlouquecer com essa dose diária de medo e pavor. Preciso acabar com isso.
Adentro a recepção e pergunto por ela. Tomei o cuidado de aparecer no horário de visita, mas a recepcionista tenta desconversar. Fala que ela não pode receber visitas. Mostro meu distintivo. Isso a convence prontamente, e logo chama uma enfermeira para me levar até o quarto da garota. Antes que eu saísse de perto, porém, me lança um olhar estranho, temeroso. Isso me deixa alerta. Como será que ela está? Será que todos os meus sonhos são reais?
A enfermeira me conduz com um andar enérgico por vários corredores, o que faz com que eu me canse para acompanhá-la. Minha perna direita não pode manter esse ritmo. Chegamos a uma porta dupla, e branca, que parece mais ter sido encravada no meio da parede, como se estivesse ali apenas porque era estritamente necessário. Se não fosse, teríamos nos deparado com uma parede fria, talvez.
A enfermeira tira um molho de chaves do bolso e as destranca. Será que todas as alas ficavam passadas a chave como aquela? Estávamos falando de detentos mentalmente perturbados, mas ainda assim...
Um calafrio percorre todo o meu corpo quando passo pelo umbral. A porta fecha-se atrás de nós com um baque seco que morre rapidamente no ar parado e cheirando a agentes químicos. Meu nariz arde e faço uma careta. O corredor que aquela porta encerra é longo e largo, com pelo menos quinze quartos de cada lado. No fim dele, nada além de uma parede branca e nua.
A mulher continua com seu andar enérgico. Enquanto caminha à minha frente, percebo que seu andar é muito mais forçado que enérgico. Analiso o perfil do seu rosto. Meu coração acelera notavelmente quando percebo que seu maxilar está travado. Uma gota de suor escorre pela têmpora.
Porque ela está com medo?
Assim que formulo a frase na minha mente, meu coração dispara. Sinto os pelos do meu corpo se arrepiando e uma gota de suor frio escorrendo pelas minhas costas. A mesma sensação de quando ia entrar no apartamento do sexto andar me invade.
Minha cabeça se vira para todos os lados antes que eu possa me controlar, procurando-a, aquela menina, a garotinha de seis anos e olhos negros. Não a vejo em lugar algum. Contudo, sei que deveria estar aqui. Ou talvez esteja, eu que não possa vê-la.
Esse pensamento me trinca os dentes, da mesma forma que a enfermeira. Acho que entendo o motivo de ela estar com medo. Entendo também porque ninguém que é preso neste lugar permanece são por muito tempo. Até mesmo alguns funcionários já enlouqueceram, e poucos não foram os que abandonaram o emprego.
Chegamos ao fim do corredor, e ambos estamos tensos ao ponto de sair correndo caso algo súbito acontecesse. A enfermeira, tentando demonstrar o profissionalismo aprendido na faculdade, estende a mão na direção da janela da porta, que está cerrada por uma proteção de aço corrediça. Segura no pegador e a abre para o lado.
Gritamos!
- Meu Deus! salto para trás.
- Minha Nossa Senhora! a enfermeira exclama, muito mais agudo do que eu, e desmaia no chão.
Recuo rapidamente, mais rápido do que posso, o pânico tomando conta de mim. Tropeço nos meus pés e caio sentado no chão. Desde que a janela foi aberta, os olhos dela estão cravados nos meus, arregalados, as íris negras como um poço perdido, o rosto branco, totalmente sem expressão, colado ao vidro, emoldurado por cortinas de cabelos pretos e emaranhados.
Arrasto-me pelo chão, sentado, até que bato as costas em algo que me impede de avançar, tento forçar, continuar me afastando daqueles olhos que parecem sugar toda a luz que há ao redor. Tateio às minhas costas e percebo que estou encostado na porta de outro quarto, do outro lado do corredor. Procuro a maçaneta, sem conseguir desgrudar os olhos dos dela, por mais que eles me encham de terror.
Finalmente encontro-a. Minha mão, encharcada de suor, escorrega. Meu coração bate tão rápido que parece a ponto de explodir. Tremo incontrolavelmente, enquanto os olhos dela me perfuram cada vez mais fundo. Quando consigo encontrar novamente a maçaneta, uma violenta batida na porta do outro lado me faz gritar outra vez, um grito de puro pavor. Afasto-me o mais rápido que posso da porta, arrastando-me pelo chão, conseguindo, enfim, desfazer o contato visual com a garota.
Chego até a enfermeira e sacudo-a pelo braço, mas nada de ela se mexer. Tento outra vez. Ela continua desmaiada. Fecho os olhos com força para me impedir de olhar para a garota. Com os membros trêmulos, consigo me colocar em pé, apoiando as costas na parede.
Minha respiração está tão rápida que parece que eu acabei de correr uma maratona.
Olho para a porta de saída. Elas estão a, pelo menos, trinta metros de distância. A enfermeira não dá sinal de voltar a si. Não tenho como carregá-la, não com essa perna e no estado que estou. Volto novamente os olhos para a porta e cruzo olhares com um par azul que espreita sob uma cabeleira loira na janela do quarto de frente ao da garota, logo acima do limiar da janela. Olhos que expressam a mais pura raiva.
Tais olhos se estreitam quando um grito começa a nascer. A porta não parece ser feita de nada além de madeira, e provavelmente nem maciça é, o que só faz com que a nota aguda vaze facilmente.
Tapo meus ouvidos com as mãos por causa da intensidade do som, tão agudo quanto a nota mais alta de uma guitarra. Nada muda. O grito atravessa meus tímpanos como facas em brasa e finca-se na minha alma, paralisando-me, enchendo-me ainda mais de terror. Assim como os negros, os olhos azuis fixam-se nos meus com uma intensidade devastadora.
O som para abruptamente. Levanto a cabeça, buscando a garota loira. Ela ainda olha através da janela, mas não parece mais ter tanta raiva nos olhos. Agora há prazer.
Aproveito a pausa nos tormentos para me colocar em movimento. Minhas pernas estão fracas e eu quase não consigo respirar. Ainda assim, começo a andar, um passo de cada vez, fixando a porta do outro lado, que parecem tão mais distantes do que antes.
Fecho os olhos, concentrando-me nos movimentos. Arrependo-me na mesma hora. Sinto uma... presença. Há algo na minha frente.
Cerro os punhos, tentando encontrar a coragem necessária para abrir os olhos.
Quando os abro, engasgo com minha respiração, a única coisa que me impede de soltar outro grito. O medo toma formas desconhecidas dentro de mim. Lágrimas escorrem pela minha face.
Bem na minha frente está outra menina, bem mais nova. Uma menina que eu só tinha visto uma vez antes, que usava um vestido impecavelmente branco, e foi no mesmo dia em que entrei naquele maldito apartamento do sexto andar. Nas mãos, um machado sujo de sangue.
Minhas pernas finalmente despertam e inicio uma corrida torta e desabalada pelo corredor, o mais rápido que já me movi desde o ferimento. Mal tomo ciência se a menina se afastou para eu passar ou se simplesmente a atravessei. Não importa, também. Sei o que ela é. Ou pelo menos o que ela não é.
Choco-me violentamente contra a porta. Empurro-a freneticamente. Olho para trás e vejo a garota me observando, um sorriso inocente no rosto. Na minha cabeça, vejo-a erguendo aquele machado para me matar. A porta não abre. Xingo e chuto até me lembrar que se abre para dentro. Escancaro-a, tropeço e quase caio, apoiando-me na parede oposta para evitar.
Viro e olho através dos vidros da porta. A menina está lá, no mesmo lugar, ainda olhando para mim. Atrás dela, um homem.
Aperto tantos meus dedos contra minha palma que sinto a pele a ponto de se rasgar pelas unhas. Os cabelos dele eram negros e brilhavam, penteados perfeitamente para trás. Está parado de costas para mim, vestindo um longo avental como aquele que os médicos usam. Parece sentir que o olho. Vira a cabeça lentamente até que eu posso ver seu rosto de perfil. Nos lábios, um sorriso frio.
Abaixa-se em direção à enfermeira caída no chão. Volto a correr, tentando me distanciar o máximo possível.
O surto de adrenalina abaixa um pouco, minha perna não aguenta o esforço e falha. Vou ao chão ruidosamente. Esse impacto parece fazer com que todas as minhas forças se desvaneçam. Não consigo levantar. O máximo que posso é girar até ficar de barriga para cima. Meu corpo inteiro treme como se estivesse tendo convulsões. Sinto um frio anormal, e ainda assim o suor não deixa de escorrer de todos os poros do meu corpo. Minha respiração acontece em arquejos rasos e meu coração já está disparado há tanto tempo que meu peito dói.
Puxo uma golfada maior de ar para tentar chamar por ajuda. Forço-o para fora e o som que sai parece mais o de um animal que se afoga. Inspiro outra vez e prendo-o por alguns segundos, o máximo de tempo que consigo. Produzo uma espécie de gemido melancólico que mais se parece com o lamuriar de um fantasma.
Continuo a forçar o ar a sair de dentro de mim na forma de sons por não sei quanto tempo, temendo a cada segundo que o médico ou a garota venha atrás de mim. Finalmente ouço passos se aproximando. Temo que seja outro espírito, só que as palavras acabam com toda a dúvida.
- Meu Deus, o que aconteceu?
A voz de um homem ressoa pelo corredor na minha direção. Os passos aceleram e fazer o chão vibrar.
- Senhor, está tudo bem? Está ferido?
Um rosto aparece sobre mim, largo, barba bem feita, olhos castanhos. A visão de uma pessoa sã consegue me acalmar significativamente. Tento falar, mas ainda não consigo. Respiro o mais fundo que posso. O homem percebe que estou tremendo e chama por ajuda. Logo ouço mais passos se aproximando. Dois pares de mãos me pegam por baixo dos braços e me erguem com facilidade, colocando-me em pé. Os uniformes brancos identificam-nos como enfermeiros do centro.
Conduzem-me para algum lugar, meus pés mais se arrastando no chão do que dando passos. Chegamos a uma sala, onde me colocam em uma cadeira.
- Senhor, o que aconteceu? falam comigo novamente.
Meu coração já está mais lento, a respiração mais controlada. Consigo finalmente produzir algumas palavras.
- A enfermeira.
Ambos ficam tensos. Olham-se rapidamente.
- Onde?
- Ala infantil.
Um deles sai praticamente correndo na mesma hora.

Meia hora depois, estou completamente controlado, sentado na sala do diretor do centro com um copo de água com açúcar na mão.
Acabo de contar o que aconteceu. Ele exigiu os mínimos detalhes e eu contei todos, excluindo apenas aquelas duas pessoas que não deveriam estar lá, como fiz com a polícia. Se eu falasse da menina e do médico, provavelmente ele daria um jeito de me colocar sob tratamento também.
O pior é que agora me pergunto se realmente não estou precisando de algo assim. Foi como se a garota, a do quarto, soubesse que eu estava ali. Ela sabia que estava indo visitá-la e me esperava.
Sinto um arrepio ao lembrar um sentimento que havia no fundo daqueles olhos de escuridão.
Ela me acusava.
- Sara. – o diretor fala praticamente pela primeira vez desde que entrei em sua sala Ela tem sido a pior paciente que já conheci. A evolução do quadro dela durante este ano foi simplesmente devastador para a sua mente. Não é a primeira vez que ocorre um incidente deste envolvendo-a.
- O que ela tem?
- Esquizofrenia hebefrênica.
Novo arrepio. O mesmo diagnóstico da minha irmã.
- A ala onde você estava tem apenas pacientes esquizofrênicos. O tipo de esquizofrenia da Sara é o que eu considero como sendo o pior. É aquele onde a mente da pessoa cria fantasias impossíveis e irreais, mas que para ela não são nada além da verdade. Isso gera medo, pânico e pode levar a atitudes violentas. Às vezes, muito violentas.
- E ela só tem piorado desde que veio para cá?
- Desta vez, sim. Antes havíamos conseguido ajudá-la.
Ergo as sobrancelhas, sentindo uma estranha sensação incômoda no peito. Antes que possa responder alguma coisa, meus olhos fixam-se em uma foto atrás da mesa do diretor, em uma parede que está cheia de quadros com fotos de médicos.
Meu pulso acelera. Suor brota das minhas mãos.
- Quem é aquele? aponto, tentando impedir que meu dedo trema demais.
O diretor vira a cabeça e olha para onde estou apontando.
- Ah, este é o Dr. Ivan Nieviadonski. Um grande psiquiatra infantil que veio da Europa para trabalhar aqui. Morreu há uns trinta anos. Cuidava de crianças esquizofrênicas.
Engulo em seco, o medo ousando me dominar novamente. É o médico dos meus pesadelos. O médico do corredor.
- Como eu estava dizendo, Sara apenas piora. Tememos que, se não apresentar respostas aos tratamentos logo, tenhamos que sujeitá-la à lobotomia.
Assenti com a cabeça, mal prestando atenção às palavras dele. Só tinha olhos para o médico morto que sorriu para a câmera, o mesmo sorriso que me dera mais cedo.

Peguei com o diretor tudo o que havia sobre Sara e Isabella, minha irmã. Antes de sair da sua sala, perguntei sobre a enfermeira. Pela primeira vez ele não pareceu muito seguro. Disse que ela estava bem, tinha sido apenas o susto. Não acreditei.
Sento em uma sala reservada. Nela há apenas uma mesa com uma cadeira e um aparelho de som. Coloco um CD que carrego sempre comigo.
Abro primeiro a pasta contendo as informações de Isabella e começo a ler. Ao fundo Sabbath Bloody Sabbath, do Black Sabbath. Amo essa banda.
Há diagnósticos, exames, relatos, tudo o que se pode imaginar que acontecesse em um manicômio com um doente. A evolução da doença da minha irmã está perfeitamente detalhada aqui. O que me faz voltar a suar foi o nome que assinava todos os papéis: Dr. Ivan Nieviadonski.
Passei algumas horas lendo tudo o que havia sobre a minha irmã. Como estava escrito no formulário, ela tinha ido para lá com seis anos de idade e saído com onze, com visíveis melhoras em seu quadro. Um ano depois, se suicidou.
O Dr. Ivan registrou, em vários momentos, as coisas que minha irmã contava que via. Em quase todos esses relatos um elemento se repetia: uma pequena garota, cabelos e olhos negros, vestido branco.
Children of the Grave fazia seus acordes reverberarem pela minha cabeça, um antônimo perfeito do que aquela garota semeava.
Sinto os pelos dos meus braços se arrepiando. Quem é aquela maldita?
Fecho a pasta de Isabella e pego a de Sara, respirando bem lentamente para controlar minhas emoções. Começo a ler.
A cada página que viro, meu temor aumenta. Há algo ali muito maior do que o que posso ver ou entender, e isso me dá medo, muito medo. Como o diretor havia dito, Sara possuía esquizofrenia hebefrênica, assim como a minha irmã. Mas essa não era a única coisa em comum entre elas.
Sara havia sido internada anteriormente naquele centro, sete anos atrás, por ter ferido gravemente uma criança mais nova. Quando tinha seis anos. Aos onze, saiu de lá, apresentando grandes melhoras na doença. Um ano depois, matou e esquartejou cruelmente sua família.
Também havia relatos. Tanto da primeira vez quanto agora, sempre havia um que se repetia: uma pequena garota, cabelos e olhos negros, vestido branco.
Sinto lágrimas subindo aos meus olhos e não faço ideia do por que. Talvez seja por causa daquela terrível sensação que parece me abraçar cada vez mais forte. No que eu me meti? Em que maligna história eu tinha me envolvido quando entrei naquele apartamento?
Apoio a cabeça na mesa, sobre minhas mãos, e fecho os olhos. Já estou sentado naquele lugar há muitas horas, lendo sem parar. Estou exausto. Meu corpo está dolorido, meus olhos ardem, minha cabeça pesa. Antes que eu perceba, adormeço.

Acordo de repente, assustado. Levanto subitamente a cabeça, olhando ao redor, procurando alguma coisa.
Estive sonhando. Aperto minha cabeça, puxando os cabelos. Isso está me enlouquecendo! Soco a mesa enquanto o sonho repassa-se. Estavam os três lá. Sara, com seu olhar arregalado e acusador, a garota, com seu sorriso inocente, e o médico, com uma expressão de satisfação no rosto. Foi a primeira vez que vi seu rosto inteiro. Um buraco apodrecido fazia presença bem no meio da sua testa, veias negras espalhando-se a partir dele.
Os três ficaram apenas ali, olhando-me, e, enquanto isso, eu apenas conseguia tremer e suar, o pavor circulando pelas minhas veias, impedindo-me de me mover, falar ou gritar.
Agarro as bordas da mesa na tentativa de fazer minhas mãos pararem de tremer. Aperto os olhos, tentando decifrar o som que entra pelos meus ouvidos. Concentro-me nele até que consigo entender o que me diz.
Começa a letra de Paranoid.

Rompi com minha mulher
Pois ela não pode me ajudar com a minha mente
(...) Durante o dia todo eu penso em coisas,
Mas nada parece me satisfazer.
Acho que vou perder minha cabeça se
Eu não encontrar alguma coisa que me acalme.

Um arrepio percorre o meu corpo, cenas da minha vida, do último ano, repetindo-se.

(...) Eu digo a você que desfrute a vida.
Eu queria poder, mas pra mim é tarde demais.

Levanto num impulso e corro para o rádio. Aperto todos os botões possíveis, mas a música continua a tocar. Puxo o fio da tomada.
Ele não desliga.
Com um grito onde ódio e pavor se misturam, viro a mesa onde o aparelho está. Ele se choca violentamente contra o chão. Pedaços voam para todos os lados. Quando os ecos morrem, enfim o silêncio. Sepulcral.
Estou ofegante e trêmulo. Tento normalizar minha respiração, sem sucesso. Estou com medo, com muito medo.
Tudo o que li naquelas pastas, todos os sonhos, as lembranças, tanto a do corredor com o quarto, quanto a do apartamento, passam furiosamente pela minha mente. Com um estalo, uma teoria se forma, sem base lógica alguma, sem nada que pudesse confirmá-la. Ainda assim, quando finalmente penso naquilo em forma de palavras, tenho certeza de que estou certo.
Minha irmã, Isabella, morreu sim, há trinta anos.
que ela está viva.
Seu nome é Sara.

Abro violentamente a porta da sala e saio para o corredor. A escuridão me envolve acolhedoramente. Quantas horas haviam se passado desde que cheguei ali? Quantas horas dormi?
O medo ameaça me dominar novamente. Olho para os dois lados do corredor, mas não consigo ver o fim em nenhum lugar. Uma densa escuridão envolve suas extremidades. Volto meu olhar para a sala onde estava, um ponto de luz em meio às trevas.
Com um estalo, a lâmpada queima.
Começo a andar, tentando me afastar daquele lugar, tentando encontrar um lugar onde a loucura não esteja rondando. Uma tarefa talvez impossível neste lugar.
Minha respiração se torna tão ruidosa que ela e o som do meu coração nos meus ouvidos me impedem até mesmo de perceber meus passos desajeitados. Avanço tropegamente por um lado do corredor escolhido aleatoriamente. Levo a mão esquerda à parede para me guiar, enquanto, a direita, mantenho estendida à frente para evitar bater em algo. A escuridão é tão densa que não consigo enxergar nem mesmo o meu nariz.
grimas escorrem pelo meu rosto. Começo a soluçar. Minha mente cria as mais terríveis fantasias, os piores terrores que poderiam estar escondidos naquela escuridão. A atmosfera do lugar atinge-me no cerne do meu ser.
A cada passo, acredito que encontrarei algum monstro, algum louco ou um fantasma. Sinto as lágrimas pingando no peito, molhando minha camisa. Sinto seu gosto salgado na boca. Meus soluços ecoam à minha frente, reverberando pelas paredes e voltando a mim como ecos torturados de criaturas aprisionadas.
Uma suave luz surge, meio distante, depois de não sei quanto tempo de interminável escuridão. Parece ser a luz da lua infiltrando-se por uma janela alta.
Paro na sua frente e pergunto-me se consigo subir e sair daquele lugar. Os tremores do meu corpo são tão intensos que acredito que não. A janela talvez seja estreita demais para eu passar, também.
Pisco com força para me livrar das lágrimas e me viro.
Meus olhos fixam-se diretamente em um grande buraco apodrecido no meio de uma testa.
Antes que consiga gritar, uma mão se gruda à minha cabeça.

Uma casa de campo. Uma pequena garota em um vestido branco. Um jovem doutor. Ambos com cabelos negros.
A garota tem alucinações. Esfrega-se convulsivamente, tentado livrar-se de algo que imagina estar em sua pele. Grita, apela por ajuda. Desespera-se.
Uma injeção. O desmaio.
Acorda. Está presa a uma mesa. O doutor a observa. Um longo e fino instrumento perfurante nas mãos. Aproxima-se da garota. Sua primeira vítima. Sua filha.
Posiciona a ponta do aço afiado sobre um dos olhos negros dela. Eles estão arregalados em seu rosto sem expressão. Lá no fundo daqueles dois profundos poços de trevas, uma coisa.
Acusação.
O perfurar da lâmina. Um giro. A retirada. Uma gota de sangue no rosto da garota. Procedimento realizado com sucesso. No fundo dos olhos, mais uma coisa: ira.
A cena muda. A garota está em pé. Uma lâmina fina e comprida erguida. Um rosto vazio. Olhos de vingança.
Um movimento. A lâmina perfura uma perna. O grito do médico. Desfere um soco no rosto da garota. Seis anos. O médico corre, sai da casa, entra em uma cabana. Arma-se de um machado. Ergue a arma, a garota escancara a porta. A fúria move a lâmina. Uma cabeça se abre ao meio.
Tomado pela loucura da doença da filha, ataca o corpo dezenas de vezes. Sangue, membros, órgãos espalham-se sobre o chão.
Morta. Para nunca abandoná-lo.

Uma criança deitada em uma sala de cirurgia, presa por amarras. Em seus olhos, medo. Um médico. Uma lâmina perfurando um cérebro.
A cena retrocede. Outra criança. O mesmo médico. Uma gota de sangue a escorrer de um olho.
Tudo outra vez. Outra vez. Outra vez. Dezenas, centenas de vezes. O mesmo médico, a mesma lâmina, uma criança diferente.

Um médico em uma mesa de cirurgia, amarrado. Duas crianças, uma de seis, outra de onze, ambas de cabelos e olhos negros.
A de seis apenas observa em seu vestido branco. Nos olhos, o prazer.
Reconheço a mais velha. Sara.
Não, não era Sara.
Isabella.
Uma lâmina desce. Uma madeira vira martelo e a força mais para dentro. Crava-se profundamente no crânio da vítima. Muitas gotas de sangue.

Uma garota com uma faca nas mãos. Um homem, um médico com um buraco na testa. Cabelos negros. Ela o olha sem medo. Tem doze anos. Crava a faca no pescoço.

Abro os olhos.
Uma forte luz brilha acima de mim. Pisco com força para que minha retina se acostume com ela, só que isso não acontece. É forte demais. Minha respiração está acelerada, estou desnorteado, não consigo me localizar. Onde estive antes de chegar aqui?
Fecho os olhos, tentando lembrar.
Um jorro de imagens.
Solto um grito. Ergo meus braços, forço meu tronco, minhas pernas. Não consigo me mover. Estou preso! Começo a entrar em desespero. Debato-me, forço as amarras que me prendem, mas elas não cedem um único milímetro.
Começo a gritar, sentindo aquele medo escorrendo dentro do meu peito novamente, lembrando-me do médico, do buraco apodrecido em sua testa, das lembranças dele, das coisas que fez com aquelas crianças, da minha irmã matando-o.
Essa é a explicação daquele dia no apartamento do sexto andar.
Minha irmã o matou, saiu desse lugar e se suicidou para fugir dele. Mas o desgraçado esperou, até que ela renasceu como Sara. Então ele foi buscá-la. Ela conseguiu sair daqui outra vez. Antes, porém, que pudesse fugir dele de novo, o médico fez com que ela voltasse. Mandou sua filha, sua primeira vítima, buscar a garota.
Grito alucinadamente, tentando me mover, tentando me soltar. Não sei quanto tempo fico assim, só sei que uma hora minha garganta fica rouca e seca, meus membros perdem a força, volto ao silêncio da luz que me cega, da escuridão que me cerca.
Alguém se aproxima. Meu coração bate mais forte, enchendo-se de pavor.
Um rosto surge por baixo da luz. Cabelos negros, penteados para trás, um buraco de podridão na testa. Perco as palavras, a capacidade de pensar, de me mover, de reagir, de qualquer coisa. Uma certeza me invade, toma cada parte do meu corpo.
Nunca mais sairei daqui.
A cama se move embaixo de mim. Giro no ar, até que estou a um ângulo de setenta graus, mais ou menos, quase em pé.
Arregalo meus olhos. Puxo o ar para gritar novamente. Ele se prende na garganta na hora de sair.
Ao meu redor, dezenas de garotas, todas diferentes e iguais entre si. Algumas maiores, outras, menores, de cabelos e olhos loiros, negros e castanhos. Contudo, uma única coisa as iguala: olhos arregalados, poços profundos cheios de terror.
Logo à minha frente, reconheço uma.
Sara. Isabella.
Olhos negros, cheios de acusação.
Uma centena de lâminas longas e frias se ergue. Todas apontam para mim.
Finalmente encontro a minha voz.
Grito como nunca gritei antes.

As pontas descem.
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