23 de janeiro de 2014

O nascer do sol no fim do mundo


O céu estava de um negrume incrível, o verdadeiro negro, não as cores que criamos achando que são pretas. Ou estaria, na verdade, se Deus não tivesse criado as estrelas. Cada espaço livre do céu estava forrado delas, e seus brilhos distinguiam-se entre si como se fossem os DNA's delas: intensos, brilhantes, azuis, difusos, tênues, concentrados, vermelhos, fulgurantes, acolhedores, majestosos. Cada estrela brilhava conforme deveria brilhar, conforme seu tempo de vida, suas essências.
O mar estava calmo. Aquele era um oceano. Atlântico, Pacífico ou Índico, não tinha importância alguma. Era o mar, e sobre ele as estrelas brilhavam e nele se refletiam.
Nas águas a luz se perdia ao brilhar, embaçava-se e se misturava, perdia-se, e ao ficar muito tempo tentando ver as estrelas pelos seus reflexos, logo todos eles evanesciam, e a única coisa que o mar passava a refletir era a imensidão negra do universo.
O movimento era acolhedor, quase como um ninar. A água subia e descia vagarosamente, calma e quieta, sem motivos para mostrar seu poder. Nenhum pedaço de terra estava à vista, e por mais que isso possa ser um pouco assustador, não deixa de ser incrível de se contemplar.
O som que me envolvia era como o ruído que saía de uma piscina com poucas pessoas nela. As marolas iam e vinham, com não mais que alguns centímetros de altura, emanando aquele som que só de ouvir sabíamos que era molhado. Elas estalavam no casco do barco e projetavam a água para cima, enchendo o ar de respingos que eram carregados pelo vento, umedecendo minha pele, deixando o gosto do sal nos meus lábios, o cheiro dele em minhas narinas.
O ar ali era limpo, e o vento era puro, vento em seu estado essencial, soprando ao meu redor como havia soprado no dia em que aquele oceano se formou, e ali também a água era pura.
Faltavam poucos minutos. Virei-me na direção onde o espetáculo começaria. Não havia luz que não fosse a das estrelas, eu não queria que nada atrapalhasse o ápice da sinfonia da natureza.
Levantei-me, atento, observando. A qualquer momento, então...
Quando se está em quase completa escuridão, demora-se a perceber que a luz está surgindo. Porém, começa-se a notá-la muito tempo antes do que o comum.
Um brilho muito, muito tênue, delineou a borda do mundo, onde o oceano acabava e iniciava-se o céu, o verdadeiro horizonte. O brilho se espalhou por uma área maior do que aquela que minha visão conseguia abranger, tão fraco nas pontas que eu mal conseguia percebê-lo.
Gradualmente, a luminosidade foi aumentando. Ainda era noite escura e densa, mas as estrelas começavam a perder sua soberania, seus brilhos diminuíam lentamente.
Metade do horizonte já refulgia com um brilho de ouro-avermelhado que deixava de ser tênue e difuso para se tornar intenso e caloroso, fino nas extremidades, refulgente e alto no centro, crescendo mais e mais.
A qualquer momento, então...
Um raio dourado o precedeu, correndo pelo céu como a emanação de um sentimento. No instante seguinte, a água incendiou.
A borda vermelha do sol descortinou a noite. A escuridão do céu dissolveu-se rapidamente, como se este fosse um líquido tingido com um corante escuro ao qual gradualmente acrescentassem água límpida. Na outra ponta do horizonte, os últimos vestígios das estrelas desapareciam no azul escuro que já tomava conta do céu por ali.
Por todo o meu corpo, eu sentia o calor da luz que me tocava, intenso e puro, quente como o contato entre dois corpos nus, como se uma mão gigantesca me envolvesse ternamente.
O mar movia-se da mesma forma que antes, calmo e lentamente, mas as ondas próximas ao horizonte não mais eram feitas de água, mas de fogo líquido e incandescente, eternamente mutável em forma, intensidade e cor, como se algum deus tivesse conseguido transformar labaredas em uma substância que podia ser tocada, mensurada e manipulada, e ao mesmo tempo em que a água brilhava como se a luz fosse própria dela, refletia os raios para todos os lados, e as pequenas nuvens de água que o vento levantava prismavam esses raios, e centenas de arco-íris se formavam e desapareciam incessantemente, conforme o vento brincava com eles, dono de seus destinos.
O sol se moveu e seu fogo se espalhou, como se de uma hora para a outra tivesse se aproximado da Terra e a incendiado. O disco, vermelho como o sangue, erguia-se lentamente, e já não mais havia um pedaço de céu que não fosse de um azul límpido e profundo, ou então vermelho e intenso, no caso das partes que ficavam próximas ao sol, e eu sentia como se meu corpo estivesse prestes a queimar também, cada centímetro de pele aquecendo-se cada vez mais enquanto o ele continuava sua caminhada rumo ao céu.
A cor – do céu, do sol das águas e do ar – foi diluindo-se, passando do vermelho, ouro-avermelhado, branco e arco-íris, ao dourado, amarelo, azul e incolor. A água se aquecia, a vida despertava no mundo, os ventos se movimentavam mais, ganhando os céus, movimentando o planeta.
Por fim, o sol desgrudou-se do horizonte. As águas se apagaram e passaram apenas a refletir o fogo que brilhava no alto. Contudo, em suas ondas estavam os vestígios inconfundíveis daqueles que eram tocados pelo sol. Eles estavam em seu movimento, nos vapores que subiam lentamente enquanto ela evaporava, estavam em sua temperatura, e nos peixes que circulavam próximos à superfície.

Respirei fundo, sentindo o toque do sol no ar que entrava nos meus pulmões. Fechei os olhos enquanto sentia a sinfonia da Terra terminando o clímax do nascer de um novo dia.
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