23 de janeiro de 2014

O Ilusionista


A fogueira queima lentamente no centro do nosso círculo, iluminando os rostos disforme e bruxuleantemente. Todos parecem meio assustados, meio temerosos. Admito, apenas para mim, que estou um pouco ansioso também. É impossível não entrar nesse bosque no meio da madrugada, sem lua ou estrelas no céu, apenas com uma fogueira para iluminar o ambiente, e não ficar nervoso. Ainda mais conversando sobre o que estamos conversando. Bem, no meu caso não é nervoso, apenas ansioso.
Raquel acabou de contar sua história. É a minha vez. Todos tinham que contar uma, fosse inventada ou (supostamente) real.
A história dela foi assustadora, tenho que concordar. Mas eles não fazem ideia de como é a minha. Ela é muito mais real.
Pigarreio, chamando a atenção de todos. Os sussurros somem na mesma hora. Sinto a curiosidade deles ao olhar para mim, a forma como estão intrigados. O único som que escuto é o crepitar suave da madeira enquanto queima, a fuligem se erguendo da fogueira. Vejo um ou outro começando a abrir a boca para falar, mas começo primeiro.
- A minha história é sobre uma lenda que talvez seja pouco conhecida, originada a não muito tempo, talvez cem ou duzentos anos, quem sabe. Provavelmente a maioria de vocês nunca ouviu falar dela, mas nem por isso deixa de ser real. Vou falar sobre uma história que aconteceu vinte anos atrás. Vou falar sobre “O Ilusionista”.
Respiro fundo e começo a contar:

O ar estava morno e parado, sem vento algum, formando um silêncio quase absoluto bem no meio da cidade. A madrugada estava avançada, o que tornava o fluxo de carros bem menor, contribuindo para o silêncio que chegava a ser assustador.
Furtivamente, cinco pessoas atravessam as ruas, andando rapidamente, sem correr. Quando chegam ao seu destino, param, olhando nervosamente ao redor.
“Cara, a gente não devia entrar aí”, fala um deles, um garoto alto e magro, com óculos no rosto e cabelos curtos e espetados.
“Para de ser medroso, Thiago, não tem nada, é só um parque”.
“É, e nem é tão grande assim”, uma voz feminina se manifesta. A dona dela é pequena, cabelos tingidos de vermelho escarlate, bem magra. “Tá com medo de ficar perdido aí, Thiaguinho?”, termina, em tom de gozação.
“Cala a boca, Thabata”, ele retruca.
A garota ri.
“São as histórias”, outro garoto fala. Ele é mais baixo que o Thiago, porém bem mais forte. “Ele acha que as histórias que ele lê são reais”
Todos começam a rir, menos aquele que é o alvo da zoação. Por trás dos óculos, os olhos de Thiago brilham de raiva.
“Afinal, Gabriel, estamos entrando num parque escuro, no meio da madrugada, justamente para contar histórias de terror, não é?”, outra voz de garota fala, dirigindo-se ao garoto forte. Ela, por outro lado, é toda cheia de curvas, bem delineadas e expostas pelo short curto e o decote da blusa, o cabelo preto e liso desenhando um dos seios.
Thiago abre a boca para falar, porém, é interrompido antes mesmo de tomar fôlego.
“Vocês querem parar de falar? Vão acordar a rua inteira assim”, era um terceiro garoto que falava, pouco mais velho que os outros, de olhar inteligente. “Chega, Amanda”, ele corta a garota morena.
“Ui, ele é quem manda por aqui”, ela responde, erguendo as mãos no ar. Todos riem.
“Eu estou mandando vocês calarem as bocas e pularem logo essa grade”, Guilherme responde.
Gabriel bate uma continência.
“Sim senhor, senhor. Batalhão, temos que obedecer às ordens do comandante Guilherme imediatamente”.
Guilherme, o de ar inteligente, dá um soco em Gabriel, que se defende e empurra o amigo para longe.
Rindo, todos eles escalam a grade do parque e logo estão do outro lado, não sem antes Thiago conseguir prender a perna da calça em uma das lanças do alto da grade e precisar da ajuda de Guilherme e Gabriel para descer, com um belo rasgo nos jeans.
Aos risos e cochichos, o grupo de amigos avança para o interior do parque.
Ainda que parecesse impossível antes, o silêncio se torna ainda mais intenso quando as árvores se fecham ao redor deles e todo e qualquer indício de civilização desaparece. O parque não tem trilhas, muito menos caminhos pavimentados. É, na verdade, um bosque com cercas ao redor.
Em finais de semana, seja em dias nublados, chuvosos, frios ou ensolarados, o bosque era sempre repleto de pessoas fazendo trilhas, piqueniques, se divertindo. Em uma quarta-feira às 5 da manhã, com os portões fechados, com certeza não havia ninguém lá. Ou pelo menos é o que quatro deles acreditavam.
Assim que as árvores escondem as evidências de que estão no meio da cidade, e não perdidos na mata atlântica, um arrepio percorre Thiago.
Talvez ele estivesse exagerando mesmo, como diziam os amigos, mas as histórias que se contavam, as lendas que envolviam pessoas sozinhas na mata de madrugada, eram numerosas demais, e eles estavam indo ali justamente para falar destas lendas, as quais ele conhecia todas, é claro.
Andaram por um bom tempo por entre as árvores altas que escondiam qualquer luminosidade da lua ou das estrelas, praticamente às cegas, tendo apenas um pequeno lampião como guia. Gabriel dissera que ajudava a entrar no clima da aventura, e Thiago o odiara intensamente no momento em que deu a ideia.
Todos ali já haviam andado muitas vezes pelo bosque, conheciam-no muito bem. Estavam indo até uma clareira que tornava possível um vislumbre da lua, que, naquele dia, estava na sua fase "nova" e não ajudaria em nada mesmo que seu brilho pudesse atravessar as folhas densas.
Pelo menos não corremos o risco de encontrar lobisomens, mas há muitas coisas que surgem na lua nova, fantasiou Thiago, apenas em pensamento. Se dissesse isso em voz alta com certeza seria zoado para o resto da sua vida.
Por mais que nunca tivesse visto nada, Thiago acreditava ferrenhamente que todos os monstros que já apareceram em uma história eram reais. Bem, não todos. Algumas coisas são absurdas demais até para ele, contudo, em relação ao resto, ele era adepto da filosofia "se não pode provar que não existe, é porque existe". Uma lógica falha, mas tal fato fugia à sua percepção.
Depois de um bom tempo caminhando, finalmente chegaram à clareira. Em duplas e silenciosamente, ocuparam-se em recolher galhos e gravetos para uma fogueira.
- Alguém trouxe fósforos? - veio a pergunta de Amanda.
Todos se olharam lentamente, percebendo que tinham esquecido apenas o essencial, quando, de repente, uma luz azul se acende na escuridão.
- Pra que fósforos se tenho meu brinquedinho?
Gabriel tirara um daqueles isqueiros com tampa do bolso. Manipulou-o agilmente por entre os dedos, fazendo malabarismos com ele, até que, em alguns segundos, as chamas se espalharam pelos galhos.
Meia hora depois, o fogo ardia lentamente no centro. Era proibido acender qualquer tipo de chama ali, eles sabiam, mas o bosque não tinha vegetação rasteira, por isso as chances de provocarem um incêndio eram baixas, e com certeza não tinha ninguém para vê-los.
De repente, quando todos estavam de olhos fixos no fogo, um brilho forte e azulado se acendeu. Todos se sobressaltaram. Em seguida, veio a risada baixa de Guilherme.
“Não podia faltar justamente a lanterna, não é?”, disse ele, com o rosto iluminado de baixo para cima.
Os outros o acompanharam. Um pouco nervosos, porém.
“Lendas urbanas...”, tornou Guilherme a falar, em um tom meio sombrio e baixo, pouco acima de um sussurro. “Quem nunca ouviu uma, não é?”, seus olhos passavam por cada um dos seus amigos enquanto falava. “Quem nunca temeu uma?”.
“O Thiago tem medo de todas elas”, Gabriel soltou. As duas garotas riram. O outro garoto apenas estremeceu levemente.
Guilherme, entretanto, olhava de uma forma estranha para o amigo, uma forma intensa, que o fez se arrepiar outra vez.
Um sorriso enviesado tomou forma nos lábios do garoto que narrava.
“Ele com certeza é muito mais esperto que qualquer um de vocês três. Ou acham que a escuridão não oculta nada que devemos temer?”.
Instintivamente, as garotas olharam para os lados, tentando penetrar as sombras que vulteavam por todos os lados. O fogo pareceu brilhar um pouco menos, como se fosse subjugado às forças das trevas.
“Estamos aqui, no meio da mata, com apenas uma lanterna, um lampião e uma fogueira, na hora mais escura da noite, aquela que antecede o alvorecer, onde as criaturas das trevas são mais fortes, e vocês acham mesmo que não há nada que precisam temer, logo ali, escondido na mata, além do alcance de nossas luzes?”.
Uma leve brisa sacudiu o ar parado e fez bruxulear a fogueira, como que dando ênfase às palavras de Guilherme. Nem Gabriel parecia tão corajoso como quando pularam a grade. Apenas Guilherme parecia despreocupado, escondendo suas emoções atrás de um sorriso estranhamente encorajador e de um olhar intenso, quase faminto. Thiago havia visivelmente começado a suar.
“Lendas sobre criaturas que transcendem a realidade, coisas que deveriam habitar apenas o imaginário, existem desde o momento em que o ser humano descobriu a existência do medo. De onde surgiram essas lendas? Será que foram todas inventadas? Ou será que cada uma delas nasceu a partir de fatos?”.
Um tremor involuntário percorreu o corpo de Amanda, que se aproximou mais do fogo e abraçou os joelhos.
“Eu acredito que todas elas têm seu fundo de verdade. Com certeza foram modificadas com o passar dos anos, mas quem aqui tem coragem de entrar em um banheiro, dar a descarga três vezes e dizer três palavrões sobre o vaso sanitário e depois olhar no espelho para ver se a loira do banheiro aparece?”
Thabata estava com uma cara de que nunca mais iria ao banheiro sozinha, enquanto Thiago respirava tão profundamente que era óbvio que se esforçava para se controlar. Se estivessem todos em um quarto bem iluminado, na segurança de suas casas, todos estariam sorrindo desdenhosamente para Guilherme, mas eles já tinham ouvido várias lendas urbanas, inclusive algumas envolvendo aquele local, e cada um deles acreditava em algumas delas.
“Eu, particularmente”, continuou aquele que parecia o único que conseguiria fazer a voz sair, “gosto muito de uma lenda sobre este bosque”. Thiago deixou escapar um gemido estrangulado
“Querem ouvir?”.
Ninguém respondeu. Era óbvio que não queriam, apenas pelas suas expressões. Mas afinal, não era esse o intuito daquela reunião? Só que planejá-la havia sido muito mais empolgante e despreocupado do que efetivamente estar ali.
Guilherme, lentamente, levantou-se, de lanterna na mão, e começou a percorrer o círculo iluminado pela luz da fogueira. Cada vez que um graveto quebrava ou uma folha era esmagada, Thiago se encolhia.
“A lenda conta sobre uma garota que, um dia, saiu para passear pelo bosque sozinha, afastando-se de seus pais sem que eles percebessem, e então se perdeu aqui e ficou presa quando o anoitecer caiu. Tremendo de frio e medo, caminhou por horas, sem encontrar nada nem ninguém, até que viu uma luz e a seguiu. Quando chegou ao ponto, encontrou um grupo de jovens, como nós, que estavam sentados conversando. Porém, ao contrário de nós, estes jovens tinham uma índole má. A garota não devia ter mais do que treze anos, começava a formar seu corpo, ao contrário de algumas garotas de hoje em dia”.
Guilherme olhou maliciosamente para Amanda, que subiu mais a blusa, escondendo os seios. Sua lanterna varria as árvores aleatoriamente, indo além da luz do fogo. Os olhos de Thiago, vidrados, acompanhavam o facho de luz.
“Ela falou com eles e perguntou se podiam ajudá-la a reencontrar seus pais. Era uma garota inocente, não entendeu o significado dos olhares que lançavam a ela, dos sorrisos repugnantes”.
"Eles acabaram abusando da garota, e depois a mataram. Cinco noites depois, várias pessoas foram encontradas mutiladas, e por mais que ninguém soubesse da ligação entre os casos ainda, não demoraram a perceber que eram alguns jovens que haviam desaparecido dois dias depois da garota sumir. Os pedaços eram tantos que tiveram dificuldade em descobrir quantos corpos eram, e só conseguiram quando contaram o número de orelhas”.
Um arfar alto e abafado escapou dos lábios de Amanda. Guilherme continuou como se não tivesse notado.
“Sabem onde encontraram os corpos?”.
Os olhos dos três se arregalaram, todos querendo que ele não dissesse o que estava prestes a dizer.
“Exatamente nessa clareira".
"Foi meu pai quem me contou essa história. Desde este dia, décadas atrás, qualquer pessoa que fica neste bosque depois do anoitecer é encontrada por ela, esteja perdida ou não. Então a garota a mata. Muitos já desapareceram aqui, sabiam? Alguns nunca foram encontrados. Aqueles que foram... bem, vocês podem imaginar o estado em que estavam”.
Thabata e Amanda se abraçaram com força, esquecendo-se completamente de tentar ocultar o medo. Gabriel tentava parecer corajoso, mas estava tão duro que parecia que nunca mais levantaria dali.
Guilherme tornou a se sentar em frente à fogueira, desfez o sorriso e falou em um tom normal, o que ajudou a quebrar o clima de tensão.
“E vocês, qual a lenda de que mais gostam?”.
Vendo que os outros não falaram nada, Gabriel se prontificou a contar, ainda tentando parecer corajoso.
“Blood Mary. Longe de um banheiro é difícil acreditar, mas já tentou dizer isso três vezes na frente do espelho com as luzes apagadas? Eu travei na segunda vez, não consegui dizer por nada nesse mundo a terceira”.
Guilherme riu.
“Eu morro de medo de lobisomens”, admitiu Amanda.
“Vocês já ouviram falar da lenda do demônio de olhos amarelos?”, pergunta Thabata.
“Qual, aquela que aparece em Supernatural?”, indaga Gabriel.
“Essa mesma. A série se inspirou numa lenda urbana. Dizem que ele mata suas vítimas com fogo, as queima até virarem cinzas”.
“A Blood Mary é mesmo assustadora", Guilherme torna a falar "tão sanguinária quanto nossa amiga aqui do bosque, mas não tenho muito medo de demônios e lobisomens. Vocês sabiam que havia tanto sangue espalhado pela clareira que, dizem, até hoje têm manchas nas pedras?”
As duas garotas e Gabriel olharam em volta, procurando uma pedra para verem se aquilo era verdade. Thiago, porém, olhava fixamente para um local vários metros para trás de Guilherme. Quando este falou, ergueu o braço da mão que segurava a lanterna, apoiando-o no joelho, e o queixo na mão. Thiago olhava fixa e aterrorizadamente para o ponto onde o facho da lanterna iluminava. Sua boca foi lentamente se escancarando enquanto seu cérebro processava o que ele via.
Guilherme parecia não notar, procurando por pedras no chão para provar o que havia dito, a lanterna ainda apontada para o mesmo lugar. Os outros, porém, viram a expressão de Thiago, pois estavam de frente para ele, e seguiram seu olhar.
Congelaram no mesmo instante, as respirações presas nas gargantas.
Lentamente, por entre as árvores, um vulto branco se aproximava, balançando de um lado para o outro, na luz fraca da lanterna. Seus passos eram descompassados e leves, cambaleantes. A cabeça de cabelos loiros estava pendurada na frente do corpo.
“Achei!”, Guilherme exclamou de repente, erguendo uma pedra suja de marrom em um dos lados e baixando a lanterna ao mesmo tempo.
Gabriel precipitou-se rapidamente à frente, tomou a lanterna das mãos do amigo e apontou-a para o ponto que estava iluminando antes.
Um olhar assassino, emoldurado por cabelos longos e escorridos retornou o seu trêmulo e apavorado. A garota estava vários metros mais perto do que segundos antes, na borda do círculo de luz da fogueira. Vestia um vestido branco e rasgado, sujo de sangue. Suas mãos brilhavam, escarlates.
“O que está...”.
Guilherme começou a perguntar, sendo interrompido por um longo e cortante grito de Gabriel.
As garotas foram despertadas pelo pavor do som e gritaram também. Os três se levantaram o mais rápido que puderam, tropeçando e caindo no ímpeto de fugir. Thiago, por outro lado, estava completamente paralisado, os olhos fixos nas mãos sangrentas da garota de branco.
Quando Amanda, Thabata e Gabriel finalmente conseguiram se levantar e começaram a correr, outro som quebrou o silêncio da noite.
Os três param de repente, virando-se, esquecendo-se do motivo de estarem correndo, porque aquele era a última coisa que esperariam ouvir naquele momento.
Uma risada. Mas não uma risada qualquer, e sim uma gargalhada daquelas que se dá quando se ouve uma piada espetacular.
Gabriel olha para Guilherme se contorcendo no chão, então olha mais atentamente para o espírito que deveria estar ali para matá-los e vê que ela sorri. No instante seguinte, reconhece-a.
“Marcelle...?”, alguns segundos depois ele processa a informação completa. “Guilherme, seu desgraçado!”.
Gabriel sai correndo e pula em cima do amigo, dando vários socos nele. Guilherme se defende e, rapidamente, imobiliza o outro, ainda rindo. Depois de algum tempo se debatendo, Gabriel se rende. O corpo se descontrai e um sorriso aparece em seu rosto.
“Seu filho da mãe! Seus dois filhos da mãe. Eu pensei que fosse morrer!”.
Duas outras risadas cortam o ar silencioso da floresta. Eles estão se esquecendo da hora e do local em que estão. As garotas caíram na gargalhada também. Amanda dobrou-se em dois e Thabata estava apoiada em uma árvore.
“Eu quase me mijei de medo!”, a ruiva falou.
“Eu achei que fosse é morrer de medo, antes que qualquer coisa conseguisse me matar”.
Um som abrupto fez todas as risadas cessarem. Thiago havia se levantado do chão, deixando cair o lampião, que se apagou.
“Vocês são loucos?!”, falou, quase gritando. “Não sabem que não se deve brincar com essas coisas? Não se deve tirar sarro de lendas urbanas! Isso só os faz ficarem mais furiosos! Vamos ter muita sorte se essa garota não acabar aparecendo agora”.
Os outros cinco estavam parados, perplexos, olhando para o amigo. Em seguida, desataram a rir novamente, todos de uma vez. Thiago ficou parado no meio da clareira, a fogueira a iluminá-lo por baixo.
Guilherme, depois de alguns segundos, conseguiu tomar fôlego para voltar a falar.
“Você é meio retardado mesmo, né, Thiago? Não existe nenhuma garota que morreu aqui e voltou para matar os caras. Eu inventei toda a história”.
Thiago parecia decidido a não desistir.
“Mesmo assim, existem seres que matam justamente aqueles que zoam as lendas!”
“Ah, Thiago, cala a boca vai”, Gabriel respondeu, bem mais relaxado do que antes. “Essas porcarias não existem”.
O garoto de óculos abriu a boca para falar outra vez, pareceu mudar de ideia, então a fechou novamente. Parecia ter percebido que nada do que falasse mudaria alguma coisa. Seu rosto estava sério, como se tivesse tomado uma decisão.
Todos tornaram a se sentar ao redor da fogueira, bem mais relaxados, exceto Thiago, é claro. Ele, relutantemente, sentou-se um pouco mais longe de todos, de cara fechada, encarando as chamas.
“Vocês precisavam ver a cara que fizeram!”, Marcelle, a garota que fingira ser o espírito, disse. “Acho que nunca vi ninguém com tanto medo quanto vocês”, ela riu novamente. “Catchup?”, ergueu as mãos, depois começou a limpá-las no vestido.
A conversa se tornou bem mais descontraída depois disso, e também mais alta. O único que não estava à vontade era Thiago, que continuava encolhido, afastado, lançando olhares furtivos para as árvores.
Guilherme puxou alguns pacotes de salgadinhos de sua mochila e distribuiu entre os amigos, que, felizes, começaram a comer ruidosamente. Thiago recusou a comida, encolhendo-se ainda mais com o aumento do volume de barulho que estavam fazendo.
Ele parecia o mais louco de todos, só que não. Realmente era o único sensato ali.
Um estalo no meio das árvores, um sobressalto, tudo passado despercebido. Os olhos do garoto se apertaram e concentraram ao máximo, tentando por tudo vencer a escuridão que havia por entre os troncos. Ele não conseguia ver nada, contudo, nem um movimento, nada. Seu coração estava acelerado, retumbando no peito. Os outros não notaram nada de diferente, absortos nas conversas e risadas. Começaram novamente a falar sobre lendas urbanas, mas não contavam mais as histórias. A constatação de que a garota que pensaram ser a da lenda contada por Guilherme era a amiga deles, Marcelle, pareceu ter tirado o medo de todos, que falavam despreocupadamente sobre as histórias, satirizando-as, provocando os seres que habitam a escuridão.
Thiago começou a produzir ruídos sem sentido. Cada vez mais o medo entranhando-se em sua mente, sua alma, seu ser.
Quando aconteceu, foi tudo muito de repente, muito rápido.
Um vento, uma sombra, um farfalhar desconexo como se algo vasto e invisível atravessasse o ar muito rapidamente.
No instante seguinte, tudo voltara ao normal.
Os olhos de Thiago estavam arregalados, quase saltando das órbitas. Os outros não pareceram perceber nada, estavam falando mais alto do que nunca, gargalhando histericamente como se estivessem seguros em suas casas.
“Calem a boca!”.
Subitamente, Thiago gritou. Estava de pé, sem se lembrar quando foi que se levantou. Os outros, assustados com a reação súbita do garoto, calaram-se instantaneamente.
Thiago olhava fixamente para frente, para o ponto onde achava que tinha visto a sombra. Seu coração parecia estar sendo tocado por um exímio baterista. A respiração saía em arquejos fracos, incapaz de colocar oxigênio suficiente para dentro de suas veias. Sua visão embaçou momentaneamente, fazendo-o cambalear um ou dois passos. Piscou com força, desesperando-se ainda mais com a possibilidade de desmaiar bem ali.
“Você é louco, não é?”, Guilherme perguntou. Todos estavam olhando para Thiago, ainda. Nos rostos as expressões iam do medo à descrença, passando pela ironia e pena.
“Eu sou louco? Eu?!”. Thiago estava ficando histérico. “Vocês estão aí, feito um bando de retardados, tirando com a cara de todas as lendas urbanas que podem se lembrar, e acham que é a coisa mais normal do mundo!”. Suas mãos estavam geladas, fechadas em punhos enquanto falava, esforçando-se para não deixar a voz afinar devido ao medo. “Eu vou embora daqui. Vocês terão sorte se voltarem para casa”.
Ninguém conseguiu pensar em nada para falar. Para eles, a situação era tão ridícula que realmente ficava difícil dar uma resposta à “loucura” do amigo.
Mas mal Thiago tinha dado três passos, estacou, o olhar fixo à frente. Um segundo depois, recuou rapidamente, de costas, tropeçou em uma pedra e caiu pesadamente no chão.
“Ah, qual é, Thiago”, começou Gabriel, “vai nos dizer agora que está vendo alguma coisa? Você é um cagão mesmo”.
“Vocês mataram a gente. Vamos todos morrer...”, o garoto falou, as palavras se perdendo, fugindo do sentido lógico. “Estamos todos mortos”.
Os outros estavam totalmente descrentes. Ainda assim, Guilherme acendeu novamente a lanterna e apontou para o ponto onde fixava-se o olhar de Thiago. O facho de luz passou entre dois troncos de árvores. E não se perdeu na escuridão além.
Veias vermelhas corriam pelo branco de um par de olhos vidrados e arregalados, emoldurados por cortinas negras de cabelos emaranhados, que desciam, revoltos, por cima de um vestido de linho branco. Várias manchas de sangue fresco se espalhavam por ele em vários pontos. Dos dedos, mais sangue pingava, como se as mãos estivessem em uma vasilha cheia dele um segundo antes. Ou então tivessem rasgado alguém um segundo antes.
Uma gota de sangue brilhou com a luz do fogo antes de cair no chão.
Um grito grave e alto destruiu o silêncio. Guilherme se levantou correndo, sem nenhum vestígio da presunção anterior, de toda a sua confiança. Estava completamente apavorado. Deixando os amigos para trás, disparou na direção das árvores. Antes que pudessem chegar até elas, porém, a garota desapareceu de onde estava e reapareceu na frente dele. Guilherme parou derrapando, inverteu a direção e disparou novamente, porém, outra vez, foi interceptado pela garota. Um sorriso, muito mais um esgar, na verdade, distorceu a boca dela. Estava se divertindo com o pânico do garoto.
Thiago balbuciava, sem sentido, e antes que alguma outra coisa acontecesse, sumiu por entres as árvores, cambaleando.
As garotas tinham se agarrado, ainda sentadas no chão, e Gabriel estava completamente atônito, sem parecer ver o que estava acontecendo ao seu redor.
Guilherme parou de tentar correr e foi apenas se afastando, trêmulo, enquanto a garota se aproximava dele, ainda com aquele macabro sorriso no rosto, até que desapareceu.
O garoto olhou para os lados, procurando-a, e então congelou. Virou-se abruptamente e deparou-se com aqueles olhos cruéis a centímetros dele. Antes que pudesse gritar, antes que pudesse fazer qualquer coisa, ela se moveu.
O único som que Guilherme conseguiu produzir foi uma exclamação de espanto, como se tivesse levado um susto. Sua cabeça baixou lentamente, os olhos percorrendo todo o caminho do rosto da garota, passando pelo braço e chegando à mão. Ou tentando chegar, pois ele não podia vê-la, já que ela estava dentro dele.
Seu sangue manchou rapidamente a roupa e começou a escorrer pelo braço dela, que, rindo, subiu a mão, dentro da barriga de Guilherme, torcendo-a.
Essa foi a última coisa que os outros viram. No instante seguinte estavam gritando e correndo para o meio das árvores, Amanda e Thabata precisando arrastar Marcelle para impedi-la de correr para Guilherme.
Menos de um minuto depois, o brilho da fogueira tinha desaparecido. Estavam mergulhados na total escuridão. Continuaram a correr, querendo se afastar ao máximo da clareira e do espírito da garota, onde o amigo deles morria.
Uma das garotas tropeçou, soltando um grito, levando as outras juntas.
Gabriel percebeu, mas não parou de correr. As garotas estavam sozinhas. Quando todas conseguiram ficar finalmente em pé, não há mais vestígios do outro amigo em lugar algum, nem mesmo um som. Olharam a volta, sem saber de onde tinham vindo, para onde estavam indo, sem conseguir enxergar nada além de alguns poucos metros à frente, com muita dificuldade.

Enquanto isso, Gabriel não parou de correr. Precipitou-se pelas árvores cegamente, esbarrando com força nelas, indo ao chão várias vezes. Depois de correr por quase cinco minutos, teve que parar. Sua cabeça rodava com a falta de oxigênio e seu corpo doía depois de tantos encontrões e quedas.
Lembrou-se, de repente, do isqueiro em seu bolso. Pegou-o e o acendeu. A chama brilhou solitária em meio a um mar de trevas, sem se mover.
Com a chama mais a lhe cegar do que iluminar, Gabriel avançou, cambaleante. Após poucos passos, um brilho repentino lhe chamou a atenção. Paralisou-se. Alguns segundos de tensão depois, moveu o isqueiro no ar, tentado enxergar o que poderia ter brilhado. O brilho se repetiu, e dessa vez ele conseguiu ver de onde vinha.
Andou hesitantemente na direção da luz intermitente, temendo o que poderia encontrar.
Quando todas as árvores desimpediram seu caminho, percebeu que era uma chama. Quanto mais se aproximava, mais estranho aquilo lhe parecia. A chama estava na mesma altura que a sua, e parecia tão idêntica... Seu cérebro não conseguia processar aquilo. Se não estivesse perdido no meio de uma floresta, diria que aquilo era um espelho. Mas como podia ser possível?
A um metro de distância, parou. Seus olhos brilhavam com a luz imóvel de seu isqueiro, ambas refletidas para ele por um espelho que flutuava no meio do ar, sem apoios visíveis.
Antes que o garoto pudesse processar qualquer coisa a respeito da impossibilidade disso, viu que não estava mais sozinho no reflexo.
O ar ficou preso em sua garganta quando a garota, toda coberta de sangue, avançou para ele, e a única coisa que conseguiu pensar foi em seu nome: Bloody Mariy, Em seguida veio o grito.

Um som cortante chegou até onde as garotas estavam, um grito vindo do meio da escuridão. Marcelle começou a chorar. Seu corpo se sacudia com os violentos soluços, e por mais que tentasse manter silêncio, estava fazendo muito barulho.
“Shh, mais baixo, Marcelle, por favor”, falou Thabata, abraçando a amiga, tentando acalmá-la.
“O Guilherme”, Marcelle se esforçou para dizer entre um soluço e outro, “o Guilherme... ele está, está morto...”.
Lágrimas começaram a descer pelo rosto da Amanda também, mas estas eram silenciosas, e graças à escuridão, ninguém além dela tomou ciência disso.
De repente, um som chega até elas. As três se agarraram umas às outras, o pânico atingindo níveis astronômicos, até que notam uma luz cambaleante por entre as árvores. Era Thiago.
“Precisamos continuar”, ele falou urgentemente, “Temos que sair daqui, senão vamos todos morrer”. Em uma das mãos, carregava o lampião que havia deixado cair e se apagar.
O choro de Marcelle aumentou de intensidade. Thabata olhou de cara feia para o garoto. Amanda, porém, sabia que ele estava certo. Tinham que sair logo dali.
“Vamos, temos que encontrar a saída”, a garota morena pegou no braço das amigas com mãos trêmulas e tentou fazê-las se moverem. Depois de quase dois minutos de insistência, eles finalmente começaram a andar.
Thiago vai à frente, iluminando o caminho. Na quase completa escuridão, cheios de terror, eles estavam tendo dificuldades em se localizar. Haviam corrido à esmo pela mata, e podiam estar ainda mais longe das entradas.
Caminharam por mais de meia hora sem encontrar nada, sem ouvir um único som.
“E o Gabriel? A gente tinha que encontrá-lo, não?”, Amanda perguntou para ninguém em especial.
“E se a menina tiver o encontrado também?”, desesperou-se Thabata.
Marcelle começou novamente a chorar, cobrindo a boca com as mãos para abafar o som.
“Quietas, todas vocês!”, Thiago explodiu em voz baixa. Por mais que fosse quem mais tivesse medo de lendas urbanas antes, parecia ser o que estava melhor administrando a situação. "Acho que ouvi alguma coisa".
As três congelaram na mesma hora, paralisadas de medo, tentando escutar alguma coisa. Um galho parecia ranger levemente mais à frente, como se alguém estivesse em cima dele. O silêncio era tão profundo, sem um único farfalhar de folhas, que aquele tênue som (o único além das respirações entrecortadas deles) se destacava gritantemente. Thiago apontou para o alto das árvores e as garotas lançaram olhares amedrontados para cima, girando para tentar enxergar alguma coisa no alto, sem se afastarem umas das outras.
Thiago incitou-as a andar, o mais devagar possível, segurando o lampião bem alto para que sua luz fraca iluminasse a maior área possível.
Em certo momento, ele fez sinal para que todas parassem. Diminuiu a luz do lampião até que ela quase se apagasse, e na escuridão que se seguiu, conseguiram distinguir uma difusa luz azul bruxuleando mais à frente, bem perto do chão.
Seguiram em direção da luz, todos pensando nas terríveis histórias de criaturas que usavam luzes para atrair pessoas perdidas em matas para se alimentarem delas.
O ranger do galho continuava ritmicamente, hipnoticamente, na mesma direção de onde vinha a luz.
Quando ultrapassaram as últimas árvores que os separavam, entraram em uma pequena clareira de onde poderia se ver retalhos do céu, caso fosse uma noite com lua. Os garotos perceberam que a luz provinha de uma pequena chama azul no chão, que se agitava levemente, ainda que eles não sentissem vento algum.
O fogo era azul e com um formato definido; logo se via que não era uma tentativa de fogueira. Na clareira, o ranger do galho era mais alto.
Com uma terrível sensação de reconhecimento, Thabata arrancou o lampião das mãos de Thiago e aumentou sua luz.
Um grito, som de vidro se quebrando, e novamente a luz do lampião se apagou quando ele caiu no chão. O cheiro de querosene se espalhou pelo ar.
Gabriel estava pendurado no ar, de cabeça para baixo. Sangue escorria pela sua testa enquanto ele balançava de um lado para o outro como um pêndulo.
“Meu Deus, Gabriel!”, Thabata exclamou, muito mais alto do que seria sensato. "Rápido, me ajudem com ele, por favor!".
 A garota estava desesperada, tocando a esmo o corpo do garoto pendurado, sem saber como tirá-lo dali.
“Alguém tem uma faca? Precisamos cortar a corda”.
Nenhum dos outros havia se mexido ainda.
“O que é que há com vocês?”, a garota exasperou-se.
Amanda levantou uma mão e apontou para o céu.
“Hoje é lua nova”.
“E? O que é que isso importa?”.
A Amanda não respondeu, apenas continuou a apontar e olhar para o céu.
Cedendo, Thabata levantou o olhar.
Uma lua cheia, gorda, brilhante, enorme e meio amarelada, cercada por um halo de nuvens que projetavam sua luz, fazendo-a parecer ainda maior, brilhava no céu.
Antes que Thabata pudesse arfar, um uivo cortou o ar. Era alto e gritante, cheio de ódio e crueldade.
Marcelle gritou e se encolheu no chão, Thabata deu um passo para longe de Gabriel, e no segundo seguinte, viu um par de olhos amarelos brilhando no alto, no lugar onde estaria o galho que prendia o garoto.
Ela gritou, tropeçou e caiu para trás. No segundo seguinte, impossivelmente, a chama do isqueiro de Gabriel aumentou centenas de vezes de tamanho, rugindo como uma enorme fogueira e envolvendo todo o tronco de Gabriel. A garota gritou outra vez e tentou fazer alguma coisa, mas em segundos o corpo do menino já tinha sido envolto em chamas. Ele se sacudia e gritava, ardendo como uma tocha.
O uivo tornou a singrar o ar, mais alto, mais próximo. Amanda e Marcelle seguraram os braços da amiga e tentaram fazer com que andasse, mas ela não se moveu. Estava travada no chão, os olhos fixando algo além de onde o amigo gritava e se contorcia.
Um par de olhos amarelos se aproximavam, brilhando, pela escuridão. As outras duas garotas também viram. Tomadas por um pânico irracional, correram para longe da clareira, abandonando a amiga, o vulto negro aproximando-se cada vez mais dela.
Correram até que o som do fogo desaparecesse, tentando correr até que os gritos cessassem, mas o som da voz de Thabata seguiu-as ecoou como uma maldição pelo ar. Só depois de estarem muito longe da clareira, pararam. Pontadas agudas perfuravam os pulmões e as cabeças rodavam. Depois de quase um minuto paradas, notaram o que estava faltando.
“Onde está o Thiago?”.
Marcelle olhou ao redor, tentando responder à pergunta da Amanda.
“Ele deve ter ficado na clareira também, ou então correu antes, sem que a gente percebesse”.
“Espero que ele esteja bem...”, Amanda respondeu, estremecendo. “Vamos, não podemos ficar paradas, temos que sair daqui”.
Marcelle, ao invés de andar, caiu no chão, voltando a chorar.
“Vamos morrer, Amanda... Vamos morrer como eles”.
Os soluços sacudiam seu corpo enquanto ela abraçava os joelhos.
Amanda se aproximou rapidamente da amiga e acertou um tapa em seu rosto. O som estalou pelo ar e a outra garota parou de chorar na mesma hora.
“Nós não vamos morrer, Marcelle. Não vamos! Agora levanta e vamos embora daqui!”.
Uma respiração pesada e arfante. Um movimento, um salto, um estalar de mandíbulas e ossos. Marcelle gritou quando algo grande e cheio de pelos arrancou a amiga da sua frente.
Os olhos da Amanda estavam vidrados, sem entender direito o que estava acontecendo, ainda sem perceber a dor. Ela caiu com força no chão quando a besta a soltou. Seus olhos se fixaram na fera acima dela, um homem com formato de lobo, ou um lobo com formato de homem, impossível saber, porém muito maior que os dois juntos.
O seu grito foi alto e lancinante, daqueles que só se ouve em filmes, tão cheio de pânico e terror que qualquer um que o ouvisse sentiria medo também.
No segundo seguinte ele foi silenciado pelo arrancar de sua cabeça.
O sangue jorrou para todos os lados, brilhando à luz intensa daquele luar maligno. Os rosnados da fera se abafaram, saindo molhados enquanto ele despedaçava o corpo da garota.
Lentamente, Marcelle deu a volta no bicho, levantou-se e correu o mais rápido que suas pernas fracas e trêmulas permitiram, soluçando tão alto, fazendo tanto barulho enquanto andava que qualquer coisa que estivesse por perto a ouviria.
Assim que se afastou do lugar onde o lobisomem despedaçava Amanda, a floresta voltou a mergulhar no mais profundo breu. A lua havia desaparecido do céu. Quando notou isso, vários minutos depois, Marcelle parou de correr. Não fazia ideia do que estava acontecendo, nem como, nem por que. Só sabia que todos os seus amigos estavam mortos, e que ela seria a próxima.
No meio das trevas, um pensamento lógico surgiu.
Onde estava Thiago?
Pensou em procurá-lo, mas não queria correr o risco de encontrar o lobisomem ou todas as outras coisas que poderiam estar ali.
Sentou no chão, tremendo, chorando e soluçando, lembrando-se das cenas de seus amigos morrendo. Foi aí que conseguiu fazer a ligação.
A Amanda tinha medo de lobisomens. A Thabata tinha medo do demônio de olhos amarelos. Mas o Gabriel não tinha sido morto pela Blood Mary... Bem, pelo menos era o que ela pensava. O Guilherme não tinha inventado a lenda da garota do bosque, ela sabia disso, porque ele tinha contado para ela antes. E a garota havia matado ele. Eles estavam sendo mortos pelos seus maiores medos, pelas lendas que temiam.
E quem ela temia?
Um forte tremor sacudiu seu corpo, todos os pelos se arrepiaram, e logo ela não conseguia parar de tremer. Lágrimas profusas inundaram seus olhos e ela as odiou, pois não conseguia enxergar direito.
Quem ela temia?
Uma lenda pouco conhecida, exatamente o ser que poderia fazer com que tantas lendas aparecessem em uma única noite, que poderia fazê-los pensarem que havia lua numa noite em que ela não estava no céu.
Ela fechou os olhos com força, tremendo mais do que nunca.
Quando os abriu, deu de cara com uma fogueira, já nas brasas. Uma fogueira que ela tinha visto ser acendida enquanto estava escondida no meio da árvores. Ao seu lado, um lampião apagado. Um pouco mais além, um isqueiro jogado no chão, ao lado de uma mochila.
Ela sabia que essa não era a aparência real dele, mas naquele momento o que ela mais temia era um garoto que tinha surgido há pouco tempo na turma deles, era alto magro, usava óculos e tinha cabelos espetados, usava jeans rasgados em um joelho e uma camiseta branca.
Ela ergueu-se, olhando ao redor. Ali estavam Guilherme, Gabriel, Thabata e Amanda, jogados no chão, as gargantas rasgadas, os membros abertos em ângulos estranhos.
Ela temia uma criatura incrível, que se alimentava do medo da pessoas, do pavor, do pânico. Era por isso que fazia com que pensassem que estavam sendo mortos por aquilo que mais temiam. Tornava o medo mais real e intenso.
Marcelle deu um passo em direção à fogueira.
Quem ela mais temia era O Ilusionista.
Às suas costas, uma voz sussurrou em seu ouvido.
“Oi Marcelle”.

Termino de contar minha história. Todos estão me olhando com caras de espanto, boquiabertos, impressionados. Estou sentado um pouco além da luz da fogueira, de forma que meu rosto está meio oculto nas sombras.
- Cara, essa história foi muito boa. – fala um dos garotos do grupo.
- Foi incrível! – completa outro – Nunca tinha ouvido falar d’O Ilusionista.
- Eu também não. – fala Raquel – Você sabe onde a lenda se originou?
Inclino-me um pouco para frente, de modo que meu semblante seja banhado pela luz ondulante.
- Ela se originou em grupos como este, que resolvem se reunir no meio do nada para contar histórias de lendas urbanas que, no fundo, eles acreditam que existem, mas que, por fora, mostram desprezo e desdém. Alguns são discretos, mas é possível ver essas emoções na forma despreocupada com que contam a história, na falta de medo que usam para falar de criaturas malignas. O Ilusionista é como um justiceiro, mata aqueles que zombam das lendas, faz a justiça quando eles próprios não têm como fazer. Ele só está do outro lado, do lado das trevas.
De repente, aconteceu.
Um vento, uma sombra, um farfalhar desconexo como se algo vasto e invisível atravessasse o ar muito rapidamente.
No instante seguinte, tudo voltara ao normal.
Só que, ao contrário da história, todos os presentes ali perceberam isso. E então começaram a perceber as semelhanças: a camiseta e os jeans, os óculos, o cabelo espetado, a magreza.
- Qual o seu nome? – veio a pergunta amedrontada e trêmula de algum deles.
- Quem é você? – outro falou – Nunca te vi antes.
- Vocês ouviram a minha história - tornei a falar, ignorando as perguntas deles - Eu tentei avisá-los. Eu sempre tento avisá-los. Mas vocês nunca me escutam, nunca dão atenção. Sou um ser justo, o que eu posso fazer, então? Vocês que acabam escolhendo isso. Depois de algumas décadas, a pessoa acaba cansando de tentar ajudar. Cansei de avisar.
Sorrio, meus olhos brilham de uma maneira interessante. Todos prendem a respiração, amedrontados. Um uivo distante corta a noite.
Finalmente vem a pergunta certa.
- O... o que... o que é você?
Finalmente.
Respiro fundo.
A fogueira se apaga na mente de todos, o medo preenche o ar.

E então, os gritos.

Desafino Neural - Selecionado pela editora Estronho


Um guarda caminha lentamente por corredores às escuras. Mantinha este ritmo para impedir que seu cérebro associasse a corrida a algum perigo, por mais que ele não soubesse disso conscientemente.
Odiava aquele emprego. Maldita foi a hora em que aceitou. Preferia ter ficado na rua a entrar ali, mas tinha filhos a sustentar, então fazia o possível para controlar o medo e não enlouquecer com os gritos, murmúrios, respirações, choros e outros sons que já escutou ali.
E o pior nem era isso. O pior eram as histórias.
A diretora Alessandra não fala nada sobre elas, não as menciona, dizendo que são reais e que era para tomar cuidado, ou então, que não são, entretanto, todos os funcionários as conhecem.
O fato de todos conhecerem-nas se deve justamente aos malditos funcionários. Eles contam tudo o que sabem sobre aquele lugar para os que entram. Ele havia pedido, por acaso, para ouvir? Não, droga! Mesmo assim, contaram cada uma das que puderam lembrar, com todos os detalhes mais macabros, nojentos, aterrorizantes. Ele teria ficado muito feliz sem saber de nenhuma delas. Não exatamente feliz, porque apenas a atmosfera daquele lugar era capaz de assustar até mesmo uma pessoa cega e surda, porém, mais tranquilo.
Deixando-se levar pelas histórias, o guarda continua sua ronda, até que, ao chegar à recém-reaberta ala de psiquiatria infantil, estaca.
Volta para olhar o corredor que tinha acabado de passar.
Vazio.
que ele tinha certeza que viu um avental desaparecendo na outra ponta, através do vidro da porta dupla que isola a área dos quartos. Retirou seu cassetete de borracha da cintura, sentindo a mão tremer. Puxa um molho de chaves com a outra. Demora mais de um minuto para achar a chave certa e mais umas boas dezenas de segundos até conseguir encaixá-la na fechadura.
Um clique ecoa pelo corredor. Parecia muito mais o som de uma porta se trancando. Luta contra a ideia de que essa tranca o fecha dentro de um pesadelo.
Baixa a maçaneta, fazendo-a soltar um gemido longo e agudo. A porta, entretanto, se abre no mais profundo silêncio.
De todas as histórias que ouviu, a que mais o assusta é a que fala de um homem que havia se perdido ali em uma noite e foi capturado pelo fantasma de um médico. Foi torturado até a morte. Depois que morreu, seu espírito continuou preso, e todas as noites sua tortura continua. Dizem que é possível ouvir os gritos do homem.
O pior era que o guarda já ouviu ecos de gritos pelos corredores, no meio da noite, que parecem não vir de lugar algum.
Sua respiração treme enquanto anda. O som dos passos reverberando nas paredes só não é mais alto que o bater acelerado do seu coração.
- Doutor? – solta uma voz tão trêmula quanto o resto de si.
Viu um avental, antes, então só pode ser um médico. O que estaria fazendo ali, àquela hora? Ficou preso na ala? As portas são trancadas às dez da noite, e não são todos que têm as chaves.
Tenta engolir, mas sua boca é o oposto da testa, costas e axilas, de onde um suor frio escorre.
- Doutor? – chama novamente ao chegar ao fim do longo corredor.
Um corredor sem saída.
Aproxima-se de uma porta, mais ou menos o lugar onde tinha visto o avental desaparecer, reunindo a pouquíssima coragem que lhe resta, e olha pelo vidro.
apenas a paciente, uma garota, deitada em sua cama, completamente adormecida, os cabelos negros espalhados no travesseiro.
Acalma-se um pouco. Estava pensando nas malditas histórias, por isso viu o avental. Tudo invenção do seu cérebro. Xinga-se e repreende-se mentalmente, prometendo que ia parar de pensar naquilo. Talvez levasse um livro para ler durante a próxima ronda.
Enxuga a testa na manga do uniforme e vira-se para ir embora.
Solta um grito idêntico àqueles que teme ouvir.



Centro Psiquiátrico Machado de Lucas, 25 anos atrás.

O som de cascalho sendo triturado por pneus invade meus ouvidos e me traz de volta lembranças que prefiro esquecer. Há vários tipos de lembranças, classificadas em várias categorias. As lembranças que queremos esquecer estão naquelas que, por essência, nunca sairão da nossa mente. Basta não querer pensar em algo para ele vir à tona.
O som que me remete ao passado foi causado por pneus que pertenciam a um sedã negro, propriedade da Polícia Federal do Brasil. Já o cascalho pertencia a um manicômio.
Não um manicômio qualquer. O pior de todos.
Nunca imaginei que uma pessoa poderia expressar tanto pavor nos olhos como aquela garota ao ouvir a sentença do juiz.

Por haver sido comprovada a incapacidade mental da ré, sentencio-a, pela tortura, assassinato e esquartejamento de seus pais e irmã, à internação em um centro psiquiátrico qualificado, a instituição Machado de Lucas”.

As palavras do juiz me ficaram gravadas ferreamente na memória, como se tivessem sido escritas a fogo na retina e eu tivesse sido obrigado a lê-las cada segundo desde que foram pronunciadas. A expressão dela também. Louca. Mas não louca o suficiente para não saber o que era uma sentença que a mandava para aquele lugar.
Era a ele que pertenciam os cascalhos esmagados pelo sedã preto da polícia. No volante, eu.
Seus gritos pareceram ecoar outra vez nos meus ouvidos. Desesperados, alucinados, suplicantes, cheios de ódio. Todas essas emoções foram expressas por aquela voz, que usou seus acordes mais agudos para expressar seu medo e desespero.
Quase senti pena. Quase.
Fecho os olhos e mergulho na cena novamente.

Gritos entram pela janela. Eram gritos apavorados, e duas eram as vozes que os geravam.
Levanto com um pulo só do sofá da sala, onde estivera cochilando. Novas facas sonoras penetram no meu apartamento, ferindo minha alma com a intensidade do medo que carregam.
Avanço para a cômoda da sala, um programa qualquer esquecido na televisão. No primeiro passo, chuto a mesa de centro com tanta força que o tampo de vidro, já rachado, despedaça-se. A pontada aguda de dor desperta o que faltava dos meus sentidos. Solto um grito abafado com um palavrão no meio. Sento no sofá e subo a perna da calça, já rasgada, para ver o estrago.
Nenhum vidro preso, mas um corte de uns dez centímetros de extensão deixava o sangue jorrar da parte posterior da panturrilha, perto do calcanhar.
Com um puxão, termino de rasgar a perna da calça até o joelho. Arranco o pedaço de tecido e amarro-o sobre o corte.
Do lado de fora, nem mesmo um suspiro.
Amaldiçoando tudo o que posso amaldiçoar, termino, mancando, o trajeto até a cômoda. Abro a gaveta e pego o que queria.
Saio do apartamento e chego direto nas escadas, tão silenciosas quanto o exterior do prédio. Passo a trava na porta. Solto a da arma.
Moro no segundo andar, e os gritos pareciam vir do quinto ou sexto. Inicio a subida. Merda de prédio sem elevador.
Avanço o mais rápido que minha perna ferida permite, controlando um gemido de dor que ameaça sair toda vez que apoio meu peso nela. Chego ao terceiro andar, portas estão abertas, outros moradores assustados com os gritos, tentando saber o que estava acontecendo. Subo até o quinto e encontro uma mulher que diz ter certeza que eles vieram do andar de cima, e que também ouviu sons de pancadas fortes, muitos deles. Meus vizinhos sabem que sou federal e parecem mais tranquilos ao me verem por ali.
Eu, entretanto, não estou nada tranquilo.
Chego ao sexto.
duas portas, ambas fechadas. Por algum motivo, sei que a certa é a da direita.
No momento, apenas silêncio.
Sinto um forte arrepio por todo o meu corpo e uma sensação gélida. Um frio pegajoso começa a escorrer por dentro do meu peito.
Respiro fundo, tentando controlar aquelas reações irracionais. Preparo-me para arrombar a porta. Com um grito abafado de dor, atiro-me contra a madeira.
A porta se abre, tropeço nos meus pés e vou ao chão. Nem cheguei a tocá-la.
Ouço o baque forte e seco da entrada se fechando.
O medo pegajoso dissolve-se no meu sangue, fluindo mais facilmente dentro de mim. Entro em pânico. Levanto, esquecendo o ferimento. Giro a maçaneta e puxo uma, duas, três vezes, usando toda a minha força. Apoio um pé no batente e repito o processo. Nada. Furioso, miro a fechadura e disparo cinco vezes por toda a sua extensão, destruindo-a. A porta continua fechada. Passo os dedos pelo buraco aberto na madeira, mas nem assim consigo abri-la.
Desisto. Escoro-me na parede ao lado da porta e olho pela primeira vez para o apartamento. Minha respiração fica presa. Poderia haver alguém armado ali, e eu feito idiota tentando arrombar a porta. Já poderia até mesmo ter sido morto.
Ergo a arma e, lentamente, sentindo o sangue escorrendo pela minha perna, manco pelo local. Quando chego à frente da porta de um dos quartos, sinto novamente aquele arrepio. Era ali. Os gritos tinham saído dali.
Giro a maçaneta. A porta se abre quase que gentilmente. Avanço, claudicante, e quando finalmente posso ver o que há, paraliso-me.
Um par de olhos negros fixa-me friamente, do outro lado do cômodo, encimando um vestido branco de linho. E um grande machado. Ambos cobertos de sangue.
Ao seu redor, destruição, tudo tingido de vermelho.
Minha mente não consegue abarcar o horror daquela cena. Dou mais um passo. Meu pé bate em algo no chão. Desvio o olhar e fito, embasbacado, apenas um dos pedaços do que estava espalhado por todo o quarto. Era uma mão. Apenas a mão.
Um machado é erguido por suaves braços de criança. Seus pés correm na minha direção. Em um gesto instintivo, abaixo a pistola e disparo.
A bala atravessa o ombro, sua força impulsionando-a no sentido contrário. Cai no chão e bate a cabeça. O som do machado se chocando contra o piso é mais alto. Desmaia.
Um estrondo chega da sala, forçando-me a agir.
Vou para lá. A porta de entrada está escancarada, e por ela entra um batalhão de policiais militares, atentos, prontos para matar um assassino. Veem-me e gritam para que eu solte a arma, me abaixe no chão. Automaticamente, mostro meu distintivo, que sempre levo comigo. Ainda estou mergulhado num denso torpor causado pela visão de dentro daquele quarto.
Tinham sido três pessoas, e eu só sabia disso porque só contei três cabeças. Pela quantidade de pedaços, membros, vísceras e sangue espalhados, bem poderia ser uma multidão.
Sento-me no sofá, sem saber como reagir. Ouço um riso de criança ecoar ao meu redor. Do outro lado da sala, dois olhos negros desaparecem assim que cruzam com os meus.

Abro os olhos e volto ao presente.
Odeio as lembranças daquele dia. Mas, como disse, são justamente essas que nunca saem da nossa mente. Ainda possuo uma bela cicatriz e uma merda de um manquejar que me acompanhará pelo resto da vida. Como posso esquecer aquilo se cada passo que dou me lembra do porque daquela porcaria de andar torto? O vidro tinha lesionado um tendão, além do músculo. No final das contas, alguns pedaços bem pequenos tinham entrado no ferimento e foram dilacerando minha carne por dentro durante o esforço que fiz em seguida.
E tudo para encontrar... Aquilo.
Quase um ano depois, ainda tenho pesadelos com aquele dia, com a visão daqueles corpos.
Tudo isso eu contei para a polícia comum. Dei meu depoimento, voltando várias horas naquele dia. Queriam saber cada detalhe, se tinha ouvido algum barulho antes, se tinha visto a garota ou alguém da sua família. Não, eu não tinha visto, não, não escutei nada. Ainda assim, detalhei todos os acontecimentos que presenciei.
Bem, quase todos.
Se eu tivesse dito, principalmente no tribunal, quando testemunhei, que havia visto uma garota de cabelos e olhos negros, com não mais que seis anos, usando um vestido de linho todo branco, e que assim que ela me olhou, desapareceu, provavelmente eu estaria neste mesmo momento internado em algum outro manicômio, e não do lado de fora daquele.
Pouco mais de um ano se passou desde que estivera ali pela primeira vez, e achei que seria a última. Não sei por que notar que nada havia mudado me surpreende tanto. Até mesmo o som dos pneus esmagando o cascalho era o mesmo, o maldito som que fechou definitivamente a sentença daquela garota, que sempre me faria lembrar o dia em que foi levada até ali.
Ela foi transferida da delegacia em um carro comum da policia militar. Eu não tinha nada que estar ali, era apenas uma testemunha no caso, mas quis acompanhar o trajeto dela. Eu a conhecia. Havíamos conversado inúmeras vezes, e ela nunca pareceu ter nenhum problema. O que a levaria a usar um machado para matar seus pais e sua irmã (de apenas seis anos!) e depois esquartejá-los tão cruelmente? Eram tantos os pedaços que os legistas tiveram algumas dificuldades em definir que partes do corpo compuseram.
Sinto uma ligeira tontura e resolvo parar de pensar nisso.
Olho ao redor e verifico que estou sozinho no estacionamento cercado por árvores. O centro tinha sido construído, 225 anos antes, num local isolado, cercado pela vegetação. Só não sei se o intuito foi promover tranquilidade aos presos ou impedir que eles pudessem causar mal a alguém antes que fossem capturados, caso fugissem. Provavelmente a segunda opção.
Começo a andar, saindo do estacionamento, dando a volta no prédio para chegar à entrada. Paro em frente às escadas. Nunca imaginei que fosse voltar a este lugar. Muito menos por esse motivo.
Maldito formulário! Preferia nunca tê-lo encontrado. Devia ter contratado alguém para fazer o inventário da casa da minha mãe, assim nunca teria descoberto aquele papel. Ele datava de 36 anos atrás, assinado pelos meus pais, autorizando a internação de Isabella Gonçalves Brandão. Diagnóstico: esquizofrenia hebefrênica. No alto, o símbolo da instituição: Centro Psiquiátrico Machado de Lucas. Junto com esse papel, encontrei outros três. Um deles era uma sentença de internação por agressão a um garoto de apenas três anos. Outro era um relatório médico, de cinco anos depois, que dizia que a tal Isabella poderia ir para casa, por determinação da justiça e liberação dos médicos, mas que o tratamento não poderia parar. O último papel havia sido feito um ano depois disso. Era um atestado de óbito. Causa da morte: suicídio.
O meu sobrenome é Gonçalves Brandão.
Conclusão: eu tive uma irmã, e ela foi internada naquele lugar, para depois se suicidar por causa da sua doença.
Crianças de seis anos podiam ser presasassim? E porque meus pais nunca me contaram sobre isso? Pela data marcada no atestado, ela morreu no mesmo ano que nasci. Acharam que não era necessário que eu soubesse disso?
Respiro fundo para controlar a raiva e a sensação de mal estar que me domina, parado em frente àquela instituição macabra.
A população em geral não ouve falar dela, mas é um lugar muito conhecido por policiais. Sempre que se quer dar fim a um preso relativamente perigoso ou problemático, dá-se um jeito de declará-lo mentalmente incapaz, e então ele vem pra cá. Ou quando um advogado tenta safar seu cliente declarando a mesma coisa só para ele fugir da prisão, se o juiz é mais, digamos, rigoroso, o manda pra cá também.
Esse lugar está cheio de assassinos, estupradores, torturadores, os piores tipos de criminosos, todos loucos. Porque dizem que se você entra são ali, não permanece assim por muito tempo.
Solto o ar que estava prendendo e inicio a subida manquejante da escada de entrada do centro. Quero descobrir tudo o que puder em relação à minha irmã, mesmo que eu não tenha mais como ajudá-la.
Preciso saber sobre a garota, também. Desde que tentara me matar, não passo um dia sequer sem pensar nela. Por mais louca ou perturbada que seja, por mais que tenha feito aquilo com seus pais... Não acho que este seja um bom lugar para uma criança. Aqui ela não será curada, se tudo o que contam for real.
Na verdade, passei esse ano fazendo muito mais do que apenas pensar.
Separado, há anos não divido minha casa com alguém. Meu casamento não deu certo. Minha mulher não me aguentou e foi embora. Dizia que eu era muito estranho, isolado, antissocial. Deixou a aliança em cima da mesa e foi embora, sem dizer nada além do que eu já sabia. Depois do que aconteceu com a minha perna, aposentei-me por invalidez. Não preciso mais trabalhar, e isso é um tormento para mim, para a minha mente, minha sanidade.
Sonhei com ela. Sonhei muitas vezes e ainda sonho. Algumas delas com a cena que presenciei, outras, muitas outras, com várias cenas diferentes que se passaram em vários lugares, ainda que todos parecessem pertencer a um mesmo local. Vi-a em vários quartos e salas, às vezes cercada por instrumentos cirúrgicos, às vezes em locais totalmente brancos. Em todas essas vezes, junto com ela, estava um homem. A julgar pelo jaleco branco, um médico. Seus cabelos eram negros e penteados para trás, e isso era tudo o que eu via dele. Nunca vi seu rosto, mas vi as coisas que fazia com ela. Lembro que fazia perguntas, falava, às vezes parecia hipnotizá-la, outras vezes injetava substâncias em suas veias. Torturava-a. Em alguns dos sonhos a garota simplesmente surtava. Começava a berrar feito louca, a tentar bater no médico. Nunca conseguia. E isso era estranho, porque na situação em que eu estava, ali, de espectador, a garota parecia mais distante de mim, como se estivesse inalcançável. O médico, porém, estava a um toque de distância. Eu sabia, sentia que se fosse em direção a ele e tentasse tocá-lo, conseguiria.
Nunca tentei. Porque os sonhos, inclusive aqueles em que apenas nos observávamos (por mais que eu a sentisse tão distante, ela podia me ver e eu sabia que sim), são todos pesadelos.
O medo está sempre me rondando, sempre ameaçando me assaltar e dominar. Acho que os piores sonhos são os que ela tenta falar comigo, tenta me pedir ajuda. Nunca consigo me mover, nunca consigo ajudá-la. Assim, ela continua sofrendo.
Acordo encharcado de suor todas as vezes. Tremendo. O coração acelerado.
Esses sonhos, que mais pareciam uma novela que eu assistia um capítulo a cada noite, são outro motivo para eu estar aqui neste momento. Preciso tentar achar uma explicação para isso. Nunca mais dormi realmente bem desde aquele acontecimento. Estou a ponto de enlouquecer com essa dose diária de medo e pavor. Preciso acabar com isso.
Adentro a recepção e pergunto por ela. Tomei o cuidado de aparecer no horário de visita, mas a recepcionista tenta desconversar. Fala que ela não pode receber visitas. Mostro meu distintivo. Isso a convence prontamente, e logo chama uma enfermeira para me levar até o quarto da garota. Antes que eu saísse de perto, porém, me lança um olhar estranho, temeroso. Isso me deixa alerta. Como será que ela está? Será que todos os meus sonhos são reais?
A enfermeira me conduz com um andar enérgico por vários corredores, o que faz com que eu me canse para acompanhá-la. Minha perna direita não pode manter esse ritmo. Chegamos a uma porta dupla, e branca, que parece mais ter sido encravada no meio da parede, como se estivesse ali apenas porque era estritamente necessário. Se não fosse, teríamos nos deparado com uma parede fria, talvez.
A enfermeira tira um molho de chaves do bolso e as destranca. Será que todas as alas ficavam passadas a chave como aquela? Estávamos falando de detentos mentalmente perturbados, mas ainda assim...
Um calafrio percorre todo o meu corpo quando passo pelo umbral. A porta fecha-se atrás de nós com um baque seco que morre rapidamente no ar parado e cheirando a agentes químicos. Meu nariz arde e faço uma careta. O corredor que aquela porta encerra é longo e largo, com pelo menos quinze quartos de cada lado. No fim dele, nada além de uma parede branca e nua.
A mulher continua com seu andar enérgico. Enquanto caminha à minha frente, percebo que seu andar é muito mais forçado que enérgico. Analiso o perfil do seu rosto. Meu coração acelera notavelmente quando percebo que seu maxilar está travado. Uma gota de suor escorre pela têmpora.
Porque ela está com medo?
Assim que formulo a frase na minha mente, meu coração dispara. Sinto os pelos do meu corpo se arrepiando e uma gota de suor frio escorrendo pelas minhas costas. A mesma sensação de quando ia entrar no apartamento do sexto andar me invade.
Minha cabeça se vira para todos os lados antes que eu possa me controlar, procurando-a, aquela menina, a garotinha de seis anos e olhos negros. Não a vejo em lugar algum. Contudo, sei que deveria estar aqui. Ou talvez esteja, eu que não possa vê-la.
Esse pensamento me trinca os dentes, da mesma forma que a enfermeira. Acho que entendo o motivo de ela estar com medo. Entendo também porque ninguém que é preso neste lugar permanece são por muito tempo. Até mesmo alguns funcionários já enlouqueceram, e poucos não foram os que abandonaram o emprego.
Chegamos ao fim do corredor, e ambos estamos tensos ao ponto de sair correndo caso algo súbito acontecesse. A enfermeira, tentando demonstrar o profissionalismo aprendido na faculdade, estende a mão na direção da janela da porta, que está cerrada por uma proteção de aço corrediça. Segura no pegador e a abre para o lado.
Gritamos!
- Meu Deus! salto para trás.
- Minha Nossa Senhora! a enfermeira exclama, muito mais agudo do que eu, e desmaia no chão.
Recuo rapidamente, mais rápido do que posso, o pânico tomando conta de mim. Tropeço nos meus pés e caio sentado no chão. Desde que a janela foi aberta, os olhos dela estão cravados nos meus, arregalados, as íris negras como um poço perdido, o rosto branco, totalmente sem expressão, colado ao vidro, emoldurado por cortinas de cabelos pretos e emaranhados.
Arrasto-me pelo chão, sentado, até que bato as costas em algo que me impede de avançar, tento forçar, continuar me afastando daqueles olhos que parecem sugar toda a luz que há ao redor. Tateio às minhas costas e percebo que estou encostado na porta de outro quarto, do outro lado do corredor. Procuro a maçaneta, sem conseguir desgrudar os olhos dos dela, por mais que eles me encham de terror.
Finalmente encontro-a. Minha mão, encharcada de suor, escorrega. Meu coração bate tão rápido que parece a ponto de explodir. Tremo incontrolavelmente, enquanto os olhos dela me perfuram cada vez mais fundo. Quando consigo encontrar novamente a maçaneta, uma violenta batida na porta do outro lado me faz gritar outra vez, um grito de puro pavor. Afasto-me o mais rápido que posso da porta, arrastando-me pelo chão, conseguindo, enfim, desfazer o contato visual com a garota.
Chego até a enfermeira e sacudo-a pelo braço, mas nada de ela se mexer. Tento outra vez. Ela continua desmaiada. Fecho os olhos com força para me impedir de olhar para a garota. Com os membros trêmulos, consigo me colocar em pé, apoiando as costas na parede.
Minha respiração está tão rápida que parece que eu acabei de correr uma maratona.
Olho para a porta de saída. Elas estão a, pelo menos, trinta metros de distância. A enfermeira não dá sinal de voltar a si. Não tenho como carregá-la, não com essa perna e no estado que estou. Volto novamente os olhos para a porta e cruzo olhares com um par azul que espreita sob uma cabeleira loira na janela do quarto de frente ao da garota, logo acima do limiar da janela. Olhos que expressam a mais pura raiva.
Tais olhos se estreitam quando um grito começa a nascer. A porta não parece ser feita de nada além de madeira, e provavelmente nem maciça é, o que só faz com que a nota aguda vaze facilmente.
Tapo meus ouvidos com as mãos por causa da intensidade do som, tão agudo quanto a nota mais alta de uma guitarra. Nada muda. O grito atravessa meus tímpanos como facas em brasa e finca-se na minha alma, paralisando-me, enchendo-me ainda mais de terror. Assim como os negros, os olhos azuis fixam-se nos meus com uma intensidade devastadora.
O som para abruptamente. Levanto a cabeça, buscando a garota loira. Ela ainda olha através da janela, mas não parece mais ter tanta raiva nos olhos. Agora há prazer.
Aproveito a pausa nos tormentos para me colocar em movimento. Minhas pernas estão fracas e eu quase não consigo respirar. Ainda assim, começo a andar, um passo de cada vez, fixando a porta do outro lado, que parecem tão mais distantes do que antes.
Fecho os olhos, concentrando-me nos movimentos. Arrependo-me na mesma hora. Sinto uma... presença. Há algo na minha frente.
Cerro os punhos, tentando encontrar a coragem necessária para abrir os olhos.
Quando os abro, engasgo com minha respiração, a única coisa que me impede de soltar outro grito. O medo toma formas desconhecidas dentro de mim. Lágrimas escorrem pela minha face.
Bem na minha frente está outra menina, bem mais nova. Uma menina que eu só tinha visto uma vez antes, que usava um vestido impecavelmente branco, e foi no mesmo dia em que entrei naquele maldito apartamento do sexto andar. Nas mãos, um machado sujo de sangue.
Minhas pernas finalmente despertam e inicio uma corrida torta e desabalada pelo corredor, o mais rápido que já me movi desde o ferimento. Mal tomo ciência se a menina se afastou para eu passar ou se simplesmente a atravessei. Não importa, também. Sei o que ela é. Ou pelo menos o que ela não é.
Choco-me violentamente contra a porta. Empurro-a freneticamente. Olho para trás e vejo a garota me observando, um sorriso inocente no rosto. Na minha cabeça, vejo-a erguendo aquele machado para me matar. A porta não abre. Xingo e chuto até me lembrar que se abre para dentro. Escancaro-a, tropeço e quase caio, apoiando-me na parede oposta para evitar.
Viro e olho através dos vidros da porta. A menina está lá, no mesmo lugar, ainda olhando para mim. Atrás dela, um homem.
Aperto tantos meus dedos contra minha palma que sinto a pele a ponto de se rasgar pelas unhas. Os cabelos dele eram negros e brilhavam, penteados perfeitamente para trás. Está parado de costas para mim, vestindo um longo avental como aquele que os médicos usam. Parece sentir que o olho. Vira a cabeça lentamente até que eu posso ver seu rosto de perfil. Nos lábios, um sorriso frio.
Abaixa-se em direção à enfermeira caída no chão. Volto a correr, tentando me distanciar o máximo possível.
O surto de adrenalina abaixa um pouco, minha perna não aguenta o esforço e falha. Vou ao chão ruidosamente. Esse impacto parece fazer com que todas as minhas forças se desvaneçam. Não consigo levantar. O máximo que posso é girar até ficar de barriga para cima. Meu corpo inteiro treme como se estivesse tendo convulsões. Sinto um frio anormal, e ainda assim o suor não deixa de escorrer de todos os poros do meu corpo. Minha respiração acontece em arquejos rasos e meu coração já está disparado há tanto tempo que meu peito dói.
Puxo uma golfada maior de ar para tentar chamar por ajuda. Forço-o para fora e o som que sai parece mais o de um animal que se afoga. Inspiro outra vez e prendo-o por alguns segundos, o máximo de tempo que consigo. Produzo uma espécie de gemido melancólico que mais se parece com o lamuriar de um fantasma.
Continuo a forçar o ar a sair de dentro de mim na forma de sons por não sei quanto tempo, temendo a cada segundo que o médico ou a garota venha atrás de mim. Finalmente ouço passos se aproximando. Temo que seja outro espírito, só que as palavras acabam com toda a dúvida.
- Meu Deus, o que aconteceu?
A voz de um homem ressoa pelo corredor na minha direção. Os passos aceleram e fazer o chão vibrar.
- Senhor, está tudo bem? Está ferido?
Um rosto aparece sobre mim, largo, barba bem feita, olhos castanhos. A visão de uma pessoa sã consegue me acalmar significativamente. Tento falar, mas ainda não consigo. Respiro o mais fundo que posso. O homem percebe que estou tremendo e chama por ajuda. Logo ouço mais passos se aproximando. Dois pares de mãos me pegam por baixo dos braços e me erguem com facilidade, colocando-me em pé. Os uniformes brancos identificam-nos como enfermeiros do centro.
Conduzem-me para algum lugar, meus pés mais se arrastando no chão do que dando passos. Chegamos a uma sala, onde me colocam em uma cadeira.
- Senhor, o que aconteceu? falam comigo novamente.
Meu coração já está mais lento, a respiração mais controlada. Consigo finalmente produzir algumas palavras.
- A enfermeira.
Ambos ficam tensos. Olham-se rapidamente.
- Onde?
- Ala infantil.
Um deles sai praticamente correndo na mesma hora.

Meia hora depois, estou completamente controlado, sentado na sala do diretor do centro com um copo de água com açúcar na mão.
Acabo de contar o que aconteceu. Ele exigiu os mínimos detalhes e eu contei todos, excluindo apenas aquelas duas pessoas que não deveriam estar lá, como fiz com a polícia. Se eu falasse da menina e do médico, provavelmente ele daria um jeito de me colocar sob tratamento também.
O pior é que agora me pergunto se realmente não estou precisando de algo assim. Foi como se a garota, a do quarto, soubesse que eu estava ali. Ela sabia que estava indo visitá-la e me esperava.
Sinto um arrepio ao lembrar um sentimento que havia no fundo daqueles olhos de escuridão.
Ela me acusava.
- Sara. – o diretor fala praticamente pela primeira vez desde que entrei em sua sala Ela tem sido a pior paciente que já conheci. A evolução do quadro dela durante este ano foi simplesmente devastador para a sua mente. Não é a primeira vez que ocorre um incidente deste envolvendo-a.
- O que ela tem?
- Esquizofrenia hebefrênica.
Novo arrepio. O mesmo diagnóstico da minha irmã.
- A ala onde você estava tem apenas pacientes esquizofrênicos. O tipo de esquizofrenia da Sara é o que eu considero como sendo o pior. É aquele onde a mente da pessoa cria fantasias impossíveis e irreais, mas que para ela não são nada além da verdade. Isso gera medo, pânico e pode levar a atitudes violentas. Às vezes, muito violentas.
- E ela só tem piorado desde que veio para cá?
- Desta vez, sim. Antes havíamos conseguido ajudá-la.
Ergo as sobrancelhas, sentindo uma estranha sensação incômoda no peito. Antes que possa responder alguma coisa, meus olhos fixam-se em uma foto atrás da mesa do diretor, em uma parede que está cheia de quadros com fotos de médicos.
Meu pulso acelera. Suor brota das minhas mãos.
- Quem é aquele? aponto, tentando impedir que meu dedo trema demais.
O diretor vira a cabeça e olha para onde estou apontando.
- Ah, este é o Dr. Ivan Nieviadonski. Um grande psiquiatra infantil que veio da Europa para trabalhar aqui. Morreu há uns trinta anos. Cuidava de crianças esquizofrênicas.
Engulo em seco, o medo ousando me dominar novamente. É o médico dos meus pesadelos. O médico do corredor.
- Como eu estava dizendo, Sara apenas piora. Tememos que, se não apresentar respostas aos tratamentos logo, tenhamos que sujeitá-la à lobotomia.
Assenti com a cabeça, mal prestando atenção às palavras dele. Só tinha olhos para o médico morto que sorriu para a câmera, o mesmo sorriso que me dera mais cedo.

Peguei com o diretor tudo o que havia sobre Sara e Isabella, minha irmã. Antes de sair da sua sala, perguntei sobre a enfermeira. Pela primeira vez ele não pareceu muito seguro. Disse que ela estava bem, tinha sido apenas o susto. Não acreditei.
Sento em uma sala reservada. Nela há apenas uma mesa com uma cadeira e um aparelho de som. Coloco um CD que carrego sempre comigo.
Abro primeiro a pasta contendo as informações de Isabella e começo a ler. Ao fundo Sabbath Bloody Sabbath, do Black Sabbath. Amo essa banda.
Há diagnósticos, exames, relatos, tudo o que se pode imaginar que acontecesse em um manicômio com um doente. A evolução da doença da minha irmã está perfeitamente detalhada aqui. O que me faz voltar a suar foi o nome que assinava todos os papéis: Dr. Ivan Nieviadonski.
Passei algumas horas lendo tudo o que havia sobre a minha irmã. Como estava escrito no formulário, ela tinha ido para lá com seis anos de idade e saído com onze, com visíveis melhoras em seu quadro. Um ano depois, se suicidou.
O Dr. Ivan registrou, em vários momentos, as coisas que minha irmã contava que via. Em quase todos esses relatos um elemento se repetia: uma pequena garota, cabelos e olhos negros, vestido branco.
Children of the Grave fazia seus acordes reverberarem pela minha cabeça, um antônimo perfeito do que aquela garota semeava.
Sinto os pelos dos meus braços se arrepiando. Quem é aquela maldita?
Fecho a pasta de Isabella e pego a de Sara, respirando bem lentamente para controlar minhas emoções. Começo a ler.
A cada página que viro, meu temor aumenta. Há algo ali muito maior do que o que posso ver ou entender, e isso me dá medo, muito medo. Como o diretor havia dito, Sara possuía esquizofrenia hebefrênica, assim como a minha irmã. Mas essa não era a única coisa em comum entre elas.
Sara havia sido internada anteriormente naquele centro, sete anos atrás, por ter ferido gravemente uma criança mais nova. Quando tinha seis anos. Aos onze, saiu de lá, apresentando grandes melhoras na doença. Um ano depois, matou e esquartejou cruelmente sua família.
Também havia relatos. Tanto da primeira vez quanto agora, sempre havia um que se repetia: uma pequena garota, cabelos e olhos negros, vestido branco.
Sinto lágrimas subindo aos meus olhos e não faço ideia do por que. Talvez seja por causa daquela terrível sensação que parece me abraçar cada vez mais forte. No que eu me meti? Em que maligna história eu tinha me envolvido quando entrei naquele apartamento?
Apoio a cabeça na mesa, sobre minhas mãos, e fecho os olhos. Já estou sentado naquele lugar há muitas horas, lendo sem parar. Estou exausto. Meu corpo está dolorido, meus olhos ardem, minha cabeça pesa. Antes que eu perceba, adormeço.

Acordo de repente, assustado. Levanto subitamente a cabeça, olhando ao redor, procurando alguma coisa.
Estive sonhando. Aperto minha cabeça, puxando os cabelos. Isso está me enlouquecendo! Soco a mesa enquanto o sonho repassa-se. Estavam os três lá. Sara, com seu olhar arregalado e acusador, a garota, com seu sorriso inocente, e o médico, com uma expressão de satisfação no rosto. Foi a primeira vez que vi seu rosto inteiro. Um buraco apodrecido fazia presença bem no meio da sua testa, veias negras espalhando-se a partir dele.
Os três ficaram apenas ali, olhando-me, e, enquanto isso, eu apenas conseguia tremer e suar, o pavor circulando pelas minhas veias, impedindo-me de me mover, falar ou gritar.
Agarro as bordas da mesa na tentativa de fazer minhas mãos pararem de tremer. Aperto os olhos, tentando decifrar o som que entra pelos meus ouvidos. Concentro-me nele até que consigo entender o que me diz.
Começa a letra de Paranoid.

Rompi com minha mulher
Pois ela não pode me ajudar com a minha mente
(...) Durante o dia todo eu penso em coisas,
Mas nada parece me satisfazer.
Acho que vou perder minha cabeça se
Eu não encontrar alguma coisa que me acalme.

Um arrepio percorre o meu corpo, cenas da minha vida, do último ano, repetindo-se.

(...) Eu digo a você que desfrute a vida.
Eu queria poder, mas pra mim é tarde demais.

Levanto num impulso e corro para o rádio. Aperto todos os botões possíveis, mas a música continua a tocar. Puxo o fio da tomada.
Ele não desliga.
Com um grito onde ódio e pavor se misturam, viro a mesa onde o aparelho está. Ele se choca violentamente contra o chão. Pedaços voam para todos os lados. Quando os ecos morrem, enfim o silêncio. Sepulcral.
Estou ofegante e trêmulo. Tento normalizar minha respiração, sem sucesso. Estou com medo, com muito medo.
Tudo o que li naquelas pastas, todos os sonhos, as lembranças, tanto a do corredor com o quarto, quanto a do apartamento, passam furiosamente pela minha mente. Com um estalo, uma teoria se forma, sem base lógica alguma, sem nada que pudesse confirmá-la. Ainda assim, quando finalmente penso naquilo em forma de palavras, tenho certeza de que estou certo.
Minha irmã, Isabella, morreu sim, há trinta anos.
que ela está viva.
Seu nome é Sara.

Abro violentamente a porta da sala e saio para o corredor. A escuridão me envolve acolhedoramente. Quantas horas haviam se passado desde que cheguei ali? Quantas horas dormi?
O medo ameaça me dominar novamente. Olho para os dois lados do corredor, mas não consigo ver o fim em nenhum lugar. Uma densa escuridão envolve suas extremidades. Volto meu olhar para a sala onde estava, um ponto de luz em meio às trevas.
Com um estalo, a lâmpada queima.
Começo a andar, tentando me afastar daquele lugar, tentando encontrar um lugar onde a loucura não esteja rondando. Uma tarefa talvez impossível neste lugar.
Minha respiração se torna tão ruidosa que ela e o som do meu coração nos meus ouvidos me impedem até mesmo de perceber meus passos desajeitados. Avanço tropegamente por um lado do corredor escolhido aleatoriamente. Levo a mão esquerda à parede para me guiar, enquanto, a direita, mantenho estendida à frente para evitar bater em algo. A escuridão é tão densa que não consigo enxergar nem mesmo o meu nariz.
grimas escorrem pelo meu rosto. Começo a soluçar. Minha mente cria as mais terríveis fantasias, os piores terrores que poderiam estar escondidos naquela escuridão. A atmosfera do lugar atinge-me no cerne do meu ser.
A cada passo, acredito que encontrarei algum monstro, algum louco ou um fantasma. Sinto as lágrimas pingando no peito, molhando minha camisa. Sinto seu gosto salgado na boca. Meus soluços ecoam à minha frente, reverberando pelas paredes e voltando a mim como ecos torturados de criaturas aprisionadas.
Uma suave luz surge, meio distante, depois de não sei quanto tempo de interminável escuridão. Parece ser a luz da lua infiltrando-se por uma janela alta.
Paro na sua frente e pergunto-me se consigo subir e sair daquele lugar. Os tremores do meu corpo são tão intensos que acredito que não. A janela talvez seja estreita demais para eu passar, também.
Pisco com força para me livrar das lágrimas e me viro.
Meus olhos fixam-se diretamente em um grande buraco apodrecido no meio de uma testa.
Antes que consiga gritar, uma mão se gruda à minha cabeça.

Uma casa de campo. Uma pequena garota em um vestido branco. Um jovem doutor. Ambos com cabelos negros.
A garota tem alucinações. Esfrega-se convulsivamente, tentado livrar-se de algo que imagina estar em sua pele. Grita, apela por ajuda. Desespera-se.
Uma injeção. O desmaio.
Acorda. Está presa a uma mesa. O doutor a observa. Um longo e fino instrumento perfurante nas mãos. Aproxima-se da garota. Sua primeira vítima. Sua filha.
Posiciona a ponta do aço afiado sobre um dos olhos negros dela. Eles estão arregalados em seu rosto sem expressão. Lá no fundo daqueles dois profundos poços de trevas, uma coisa.
Acusação.
O perfurar da lâmina. Um giro. A retirada. Uma gota de sangue no rosto da garota. Procedimento realizado com sucesso. No fundo dos olhos, mais uma coisa: ira.
A cena muda. A garota está em pé. Uma lâmina fina e comprida erguida. Um rosto vazio. Olhos de vingança.
Um movimento. A lâmina perfura uma perna. O grito do médico. Desfere um soco no rosto da garota. Seis anos. O médico corre, sai da casa, entra em uma cabana. Arma-se de um machado. Ergue a arma, a garota escancara a porta. A fúria move a lâmina. Uma cabeça se abre ao meio.
Tomado pela loucura da doença da filha, ataca o corpo dezenas de vezes. Sangue, membros, órgãos espalham-se sobre o chão.
Morta. Para nunca abandoná-lo.

Uma criança deitada em uma sala de cirurgia, presa por amarras. Em seus olhos, medo. Um médico. Uma lâmina perfurando um cérebro.
A cena retrocede. Outra criança. O mesmo médico. Uma gota de sangue a escorrer de um olho.
Tudo outra vez. Outra vez. Outra vez. Dezenas, centenas de vezes. O mesmo médico, a mesma lâmina, uma criança diferente.

Um médico em uma mesa de cirurgia, amarrado. Duas crianças, uma de seis, outra de onze, ambas de cabelos e olhos negros.
A de seis apenas observa em seu vestido branco. Nos olhos, o prazer.
Reconheço a mais velha. Sara.
Não, não era Sara.
Isabella.
Uma lâmina desce. Uma madeira vira martelo e a força mais para dentro. Crava-se profundamente no crânio da vítima. Muitas gotas de sangue.

Uma garota com uma faca nas mãos. Um homem, um médico com um buraco na testa. Cabelos negros. Ela o olha sem medo. Tem doze anos. Crava a faca no pescoço.

Abro os olhos.
Uma forte luz brilha acima de mim. Pisco com força para que minha retina se acostume com ela, só que isso não acontece. É forte demais. Minha respiração está acelerada, estou desnorteado, não consigo me localizar. Onde estive antes de chegar aqui?
Fecho os olhos, tentando lembrar.
Um jorro de imagens.
Solto um grito. Ergo meus braços, forço meu tronco, minhas pernas. Não consigo me mover. Estou preso! Começo a entrar em desespero. Debato-me, forço as amarras que me prendem, mas elas não cedem um único milímetro.
Começo a gritar, sentindo aquele medo escorrendo dentro do meu peito novamente, lembrando-me do médico, do buraco apodrecido em sua testa, das lembranças dele, das coisas que fez com aquelas crianças, da minha irmã matando-o.
Essa é a explicação daquele dia no apartamento do sexto andar.
Minha irmã o matou, saiu desse lugar e se suicidou para fugir dele. Mas o desgraçado esperou, até que ela renasceu como Sara. Então ele foi buscá-la. Ela conseguiu sair daqui outra vez. Antes, porém, que pudesse fugir dele de novo, o médico fez com que ela voltasse. Mandou sua filha, sua primeira vítima, buscar a garota.
Grito alucinadamente, tentando me mover, tentando me soltar. Não sei quanto tempo fico assim, só sei que uma hora minha garganta fica rouca e seca, meus membros perdem a força, volto ao silêncio da luz que me cega, da escuridão que me cerca.
Alguém se aproxima. Meu coração bate mais forte, enchendo-se de pavor.
Um rosto surge por baixo da luz. Cabelos negros, penteados para trás, um buraco de podridão na testa. Perco as palavras, a capacidade de pensar, de me mover, de reagir, de qualquer coisa. Uma certeza me invade, toma cada parte do meu corpo.
Nunca mais sairei daqui.
A cama se move embaixo de mim. Giro no ar, até que estou a um ângulo de setenta graus, mais ou menos, quase em pé.
Arregalo meus olhos. Puxo o ar para gritar novamente. Ele se prende na garganta na hora de sair.
Ao meu redor, dezenas de garotas, todas diferentes e iguais entre si. Algumas maiores, outras, menores, de cabelos e olhos loiros, negros e castanhos. Contudo, uma única coisa as iguala: olhos arregalados, poços profundos cheios de terror.
Logo à minha frente, reconheço uma.
Sara. Isabella.
Olhos negros, cheios de acusação.
Uma centena de lâminas longas e frias se ergue. Todas apontam para mim.
Finalmente encontro a minha voz.
Grito como nunca gritei antes.

As pontas descem.

 
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