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23 de março de 2011

Night of the hunter


A noite estava calma na cidade. Pelo menos por enquanto.
Já passava muito do meio da noite, mas eu nao sabia que horas eram: isso nao importava para mim. As pessoas que passavam lá embaixo na rua eram poucas, todas andando rápidas, com um destino certo.
Uma delas não chegaria ao seu.
Fechei os olhos, apenas “observando”. O tempo não era importante para mim, os dias não eram importantes. O que importava era apenas eu e a minha existência. Não sei se eu podia chamar de vida, não sabia se estava vivo ou não. Eu existia, era isso. E para eu continuar existindo, uma daquelas pessoas deixaria de ser.
Se eu era mau? Não sei. Esse conceito de bem e mal também não existia para mim. Um leão é mal por matar um veado para sobreviver? Porque eu seria mal por matar minhas presas?
Esses não eram problemas para mim, mas sim para os humanos que estavam lá embaixo, um deles marcado para morrer. Qual seria? Aquele para o qual meus instintos levassem.
Inspirei profundamente, sentindo os cheiros ao meu redor. Os odores fétidos da cidade penetraram minhas narinas, mas eu os ignorei. Haviam cheiros mais doces no ar.
Olhei para baixo e vi uma mulher de vestido passando apressadamente pela rua. Deliciosa. De onde eu estava eu via os seios fartos se movimentando com o seu andar, uma boa parte deles deixados à mostra pelo decote da roupa.
Suas pernas fortes davam passadas firmes e rápidas, o quadril se movimentando de forma tentadora.
Além do cheiro forte de seu corpo, doce e atraente, havia também um cheiro mais forte e pungente no ar. O cheiro do medo.
Um grupo de homens ia atrás dela, eram três e olhavam fixamente para o seu corpo atraente. Infeliz momento em que eles resolveram segui-la.
Saltei do alto do predio onde estava, apenas três andares, e cai suavemente atrás deles, me escondendo atrás de um poste. Eles pararam e olharam para trás, os seus fracos instintos alertando-os, mas como nao viram nada, voltaram a perseguir a doce mulher. Ela olhou para trás, o medo estampado em seus olhos, e isso me excitou de tal maneira que quase voei em cima dela. Mas não, o jogo podia ser mais interessante.
Corri através das sombras e me interpûs entre os homens e a mulher sem que nenhum dos dois percebessem. Passei bem perto dela, muito rápido, e seu vestido levantou-se com o vento, fazendo subir aquele cheiro delicioso que vinha do meio de suas pernas. Controlei meus instintos e fiquei na frente dos homens, que pararam de subito ao me ver.
- Olá rapazes. – cumprimentei-os suavemente.
A mulher sufocou um pequeno grito de espanto e parou de andar, olhando para mim. Dei um olhar malicioso para o seu rosto, descendo aos seios antes de voltar para os homens.
- Creio que não poderei deixar que façam mal à essa dama.
Um deles, o maior e mais confiante, deu um passo à frente, encarando-me.
- Se eu fosse você eu calaria a boca e sairia da frente para não morrer.
Sorri, mas deve ter parecido muito mais um rosnado, pois ele deu um passo para trás. Esticou o braço para as costas e de lá puxou uma arma. Me atirei em cima dele.
Quebrei seu punho ao desarmá-lo e ele gritou apenas por um ou dois segundos antes que eu esmagasse sua cabeça contra um poste.
Os outros homens tentaram correr, mas eu saltei nas costas de um e, ainda no ar, quebrei seu pescoço, jogando o corpo para o lado. Corri atrás do terceiro que gritava em pânico por socorro. Ri com prazer do seu desespero e fui atrás dele. Ele tropeçou e caiu. Parei em cima dele e me ajoelhei, ignorando seus pedidos de misericordia. Perfurei seu coração com uma das maos, calando-o para sempre.
Péssimo momento em que eles decidiram perseguir minha presa.
A mulher estava parada no mesmo lugar, olhando, em pânico, a cena. Nao sabia se corria ou ficava, só sabia que não consegui se mexer.
Fui andando lentamente até ela que acabou dando um passo para trás, tentou se virar mas caiu.
Antes que ela pudesse se levantar, fui até ela e a prendi no chão com o meu corpo, minha mão ainda pingando sangue.
Rasguei seu vestido de uma vez só. Ela nao usava sutiã, apenas uma pequena calcinha. Passei a mão pelos seus seios, sentindo a maciez, sujando-os de sangue, e ela estremeceu, muito provavelmente de medo.
Não aguentei mais. Avancei com a minha boca em seu pescoço, sentindo a maciez da carne, o sangue jorrando na minha boca, quente, delicioso.
Ela não gritou em momento algum. Ficou em silêncio até o momento em que não poderia mais falar nada.
Quando terminei de me saciar levantei e limpei o rosto, olhando para o corpo mutilado que já nao me atraía mais. Deixei-a onde estava e sumi novamente na escuridão, me preparando talvez para uma outra caçada, espreitando, observando.

2 de outubro de 2010

Divagações de um jovem insone

O tempo passava lentamente, segundo a segundo, o relógio marcando sua passagem com tal desinteresse que me deixava curioso: porque ele não se importava com isso?

Quantos segundos ele não perdia em sua “vida” apenas contando-os, apenas mostrando-os... nossa tarefa então, é dar algum valor ao trabalho do relógio. Vamos olhar para ele! Mas o que me acompanha por essas palavras é tímido, silencioso... se eu não soubesse que estava ali, nem notaria sua presença.

Quantas horas se passaram? Não tenho certeza, algumas, muitas, poucas, nenhuma, o que importa mesmo é se produzi algo nesses instantes fugazes que preenchem a vida do meu amigo tic-tac, se preenchi a monotonia de sua existência com algo digno de ser olhado. Talvez, talvez.

O relógio não nos traz inspiração, ele nos mostra que o tempo está passando enquanto a inspiração não vem. Quanto mais ele adianta o seu trabalho, mais atrasados ficamos com o nosso.

Nem músicas nem sons, imagens ou palavras que não sejam as minhas. Ventos sopram dentro da máquina, mas minha companhia é apenas o som mudo do meu companheiro invisível. Olho para os lados e vejo apenas a escuridão que não amedronta, sombras que apenas existem. Existem porque o brilho sai da minha frente, entra pela minha fronte e ilumina o ambiente.

Alguns ruídos agitam o ar, mesmo assim, não há algo para inspirar.

Penso e repenso, analiso, cogito, invento...

Porque, agora, não há aproveitamento?

Versos disformes se formam, ainda que não tenham forma. Vagueiam pelo infinito da dimensão do pensamento, atravessam montanhas e movem moinhos, ficam estáticos, sempre produzindo.

Palavras ou imagens? Ambas refletem-se entre si, mostrando a cada uma o interior do seu reflexo. Suas almas se fundem em complexos simplificados, em matérias imaginárias. Produzem sons que não propagam, ondas que não dissipam, raios que desprogetam.

Se espalham para todos os lados.

Unem-se aos sons nunca ouvidos, falam línguas de desconhecidos.

Vivem.

O relógio segue seu caminho sem nunca pensar, enquanto o biológico não para de funcionar, ajustando, remoendo, prevendo, falando.

Primorosamente falando, o adjunto das onomatopéias vivenciadas cria um pleonasmo de objetos diretos e indiretos, subjetivos ocultos, que pragueiam contra a sapiência, criando contendas entre os vivazes.

Socorrendo, pugnam.

Não deixando que o tempo passe sem que o vivente seja notado, criemos subjetos dignos de contendas reais.

Conceberemos quadros reais em nosso imaginário, inspirando-nos nos sonhos que cercam nossa materialidade.

Quanto tempo se passou?

Alguns minutos e muitas teclas...

E a inspiração? Não sei, ainda não veio.

 
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